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Maceió/Al, 11 de dezembro de 2017

Colunistas

Jorge Luiz Bezerra Jorge Luiz Bezerra
É professor universitário, advogado, Mestre em Direito pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), delegado de Polícia Federal aposentado, especialista em Política Criminal, Segurança Pública e Privada, além de autor de diversos livros e artigos jurídicos.
19/10/2017 às 21:34

ÓXI e MERLA: novas drogas ou meras variações do CRACK?

ÓXI, abreviação da alcunha “oxidado”, vem do fato da droga liberar uma fumaça escura ao ser consumida e deixar um resíduo marrom, semelhante à ferrugem.

Para algumas correntes o ÓXI é uma variação do crack, de qualidade ainda pior. Também se trata de uma mistura de pasta base de cocaína com uma substância alcalina e um solvente. Só que a pasta, em vez de receber alcalinos como bicarbonato de sódio ou amoníaco e solventes como acetona e éter, recebe cal virgem e combustíveis, como querosene, gasolina, diesel e água de bateria.

As composições variam sendo possível encontrar cimento, ácido sulfúrico e soda cáustica na pedra do ÓXI. Dependendo dos ingredientes, o ÓXI pode ganhar o nome de brita. A variedade de produtos tóxicos nessas drogas amplia os riscos à saúde e dificulta o tratamento.

A doutrina indica que, assim como, o CRACK, o ÓXI pode ter surgido primeiro na Bolívia e no Peru, de onde entrou no Brasil, pelo Acre, nos anos 1990. São poucos os dados sobre a disseminação no país, mas em 2011 foi apreendido em mais da metade dos estados brasileiros, de Norte a Sul do país.  Frequentemente nas apreensões, a polícia confunde ÓXI com o CRACK, dificultando as estatísticas das reais taxas de consumo do ÓXI.

Desde a década de 1980, distante dos grandes centros brasileiros, o estado do Acre convive com a destruição produzida pelo ÓXI. A droga vendida no formato de pedra, ao valor médio de 3 reais a unidade, vem se popularizando na região Norte e, agora, espalha seus tentáculos pelas cidades do Centro-Oeste e Sudeste. "Ela já chegou ao Piauí, à Paraíba, ao Maranhão, a Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro", diz Álvaro Mendes, vice-presidente da Associação Brasileira de Redução de Danos. Uma amostra da penetração da droga em São Paulo, quando em 2011, a Polícia deteve pela primeira vez, na capital, um casal que carregava uma pedra de meio quilo de OXI.

Ao menos duas características da droga ajudam a explicar por que ela se espalha pelo país. A primeira é seu potencial alucinógeno. Assim como o crack, o ÓXI pode estimular no usuário o dobro da euforia provocada pela cocaína. A segunda razão é seu preço. "O crack não é uma droga cara, mas o oxi é ainda mais barato", diz Philip Ribeiro, especialista em dependência química do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). "Quando surge uma droga mais poderosa, mais barata e fácil de produzir, a tendência é que ela se dissemine", diz Ronaldo Laranjeira, psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e completa: "Isso ocorre especialmente porque não se criou no Brasil até agora um sistema eficaz de tratamento de dependentes."

Um dos graves problemas para o enfrentamento do OXI é a carência de dados sobre seu alcance no território brasileiro. Quem se debruça sobre o assunto, avalia que a droga atinge todas as classes sociais. "Não há um perfil estabelecido de usuário: ela é usada tanto pelos extratos mais pobres quanto pelos mais ricos da população", diz Ana Cecília Marques, psiquiatra da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e Outras Drogas (ABEAD).
A única pesquisa conhecida sobre a droga – conduzida por Álvaro Mendes, da Associação Brasileira de Redução de Danos, em parceria com o Ministério da Saúde – acompanhou cem pacientes que fumavam OXI. E chegou a uma terrível constatação: a droga matou um terço dos usuários no prazo de um ano.

Além, é claro, do alto risco de óbito, seu uso contínuo provoca reações intensas. São comuns vômito e diarreia, aparecimento de lesões precoces no sistema nervoso central e degeneração das funções hepáticas. "Solventes na composição da droga podem aumentar seu potencial cancerígeno", explica o psiquiatra Ivan Mario Braun.

Além disso, os usuários costumam consumir muitas bebidas alcoólicas, uma forma de fazer com que a droga seja metabolizada mais rapidamente..

*MERLA, o mel que mata*

Assim como no ÓXI, para fazer a MERLA (mela, mel ou melado), alcalinos e solventes baratos e fáceis de serem comprados são adicionados à pasta de cocaína. Em vez de pedras, a MERLA assume consistência pastosa, com odor forte e coloração entre amarela e marrom.

Ao contrário do ÓXI, espalhado pelo território nacional, a MERLA se concentrou nas regiões central e norte do país, sobretudo em Brasília, onde já foi mais consumida que o crack, segundo o Cebrid.

Uma das primeiras apreensões de pasta de cocaína oriunda da Bolívia, à produção clandestina de MERLA, a qual era transportada por ônibus, foi feita pela Polícia Federal em 1996, em Porto Velho/Rondônia, numa operação sob o comando do Delegado de Polícia Federal Jorge Luiz. Na oportunidade, foram apreendidas mais de 2Kg da pasta com um traficante brasileiro, useiro e vezeiro nesta prática.

A MERLA é, portanto, um subproduto da cocaína. É obtida das folhas de coca às quais se adicionam alguns solventes como ácido sulfúrico, querosene, cal virgem, etc., transformando-se num produto de consistência pastosa com uma concentração variável entre 40 a 70% de cocaína. 1 Kg de cocaína chega a produzir 3 Kg de MERLA. Pode ser fumada pura ou misturada ao tabaco comum, ou à maconha (bazuca). Possui a cor amarela- pálida à mais escuro quando vai envelhecendo. Os efeitos são semelhantes, assim como os seus riscos ao Crack.

Como se observa trata-se de uma droga altamente perigosa, que causa dependência física e psíquica, além de provocar danos, as vezes irreversíveis ao organismo.

Sua absorção normalmente é muito grande através da mucosa pulmonar e seu efeito é excitante do Sistema Nervoso Central. Sua atuação é semelhante a da cocaína, causa euforia, aumento de energia, diminuição da fadiga, do sono, do apetite, ocasionando perda de peso e psicose tóxica (alucinações, delírios, confusão mental). Devido aos resíduos dos ácidos solventes, os usuários poderão apresentar casos de fibrose (endurecimento pulmonar).

Durante o uso podem ocorrer convulsões e perda da consciência. As convulsões podem levar a parada respiratória, coma, ou parada cardíaca e, obviamente, à morte.

O usuário comumente apresenta as extremidades dos dedos amareladas. Pode evidenciar lacrimejamento, olhos avermelhados, irritados, respiração difícil, tremores das mãos, muita inquietação e irritabilidade. A longo prazo, perda dos dentes causado pelo ácido de bateria usado na mistura.

Outra característica identificadora do usuário da MERLA é que ele transpira muito e exala cheiro de querosene, éter e outras substâncias usadas na preparação da droga. O tratamento para os dependentes é muito difícil, pois, ao se afastarem da droga, mergulham em profunda depressão, o que leva cerca de 20% ao suicídio.

Esta foi uma breve abordagem de 2(duas) das drogas derivadas da COCA, mais baratas e danosas que circulam não apenas no Brasil, mas, na Bolívia, Colômbia, Peru, Chile, Argentina, Equador, Venezuela, Nicarágua, Porto Rico, México, entre outros países latinos. Não esquecendo que os EUA, ainda sofre com o abuso do CRACK, embora, o auge do consumo tenha ocorrido nos anos 90. 

*Cocaína / Crack / Merla / OXI – identificação de uso*

É plenamente possível saber se o dependente fez uso ou não de um dos 4(quatro) derivados da COCA através de exame de urina em até 03 (três) dias. A análise detecta especificamente o metabólito primário da cocaína (Benzoilecgonina) presente na urina do usuário de tais derivados.

Há quem diga que CRACK, MERLA e ÓXI são todas nomenclaturas de uma mesma droga derivada. O assunto é controverso. Contudo, incontroverso é o fato que esses subprodutos oriundos da Coca (ErythroxylumCoca) viciam e matam como poucas drogas no mundo.

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