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Maceió/Al, 21 de agosto de 2017

Colunistas

Mario Lima Mario Lima
Mário Lima tem 59 anos, 32 como jornalista profissional, começou em 1985, no lendário Jornal de Alagoas, dos Diários Associados. Foi secretário de Estado Adjunto de Comunicação do governo de Alagoas (2008-2014). Atuou e atua em Alagoas, Minas Gerais e Brasília, em veículos como Radiobras/Agência Brasil (DF), jornais Hoje em Dia (MG), O Globo (RJ), Gazeta Mercantil (SP), Gazeta de Alagoas, Tribuna de Alagoas, Extra (AL); Agência Sebrae de Notícias (DF), Agência Reuters (SP). É escritor e biógrafo. Vencedor de três edições do prêmio Banco do Brasil/ Braskem de Jornalismo (2000, 2003, 2005); prêmio Nacional Embrapa de Reportagem (2003) e uma medalha de prata do 19º Prêmio Colunista de Brasília, pela série institucional do Sebrae Nacional Parceiros do Brasil (2003).Tem uma loja virtual de arte pop e contemporânea, no endereço www.orelikario.com.br
03/03/2017 às 00:49

Rios de Maceió: oxigênio zero

Menina toma banho com água suja, no Rio Jacarecica (Foto: Lula Castello Branco)  Menina toma banho com água suja, no Rio Jacarecica (Foto: Lula Castello Branco)

Desde os anos 1980, quando a Cidade Sorriso começou a perder os dentes, no irrefreável processo de degradação, em um caldeirão que juntou êxodo rural em massa, crescimento desordenado da população e falta de políticas públicas efetivas sociais e ambientais, os rios e riachos de Maceió foram as primeiras e últimas vítimas. Eles agonizam em 2017, alguns estão com oxigênio zero, morto.

É fato para quem conheceu e tomou banho no Riacho Fragoso, ali em Bebedouro, cruzando a linha do trem. Pode ver, a visão é de chorar: mangues petrificados e natureza morta. A nascente dele é no Parque Municipal de Maceió. Os olhos d´água dessas nascentes há pouco tempo ainda desciam por um fio.

É fato para quem conheceu e tomou banho no riacho Salgadinho – como eu e todos os meninos da Avenida da Paz – que hoje ele é uma cloaca – não, não pode ser outro nome, é isso mesmo, uma cloaca! A tragédia do Salgadinho vem de muito antes, entre os anos 1940 e 1950, quando alguém teve a maldita ideia de desviar o curso natural do riacho, que passava pelo Clube Fênix e desaguava no Sobral.

As prefeituras passam, o Salgadinho continua o mesmo, levando com ele a Praia da Avenida, hoje um cartão postal sujo, ontem a praia mais famosa de Maceió, onde a cidade inteira se divertia. Veja como tudo ali era bonito nos cartões postais do Roberto Stucker. É de rasgar o coração. Teve até banho de mar à fantasia, para dizer que ele estava limpo, e nos dias seguintes uma avalanche de lixo voltou a juntar os urubus.

Os nomes são lindos: Sauaçuí, Saúde, Meirim, Pratagy, Riacho Doce, Garça Torta, Jacarecica, Reginaldo, e o nosso querido Salgadinho, como morador do bairro de Jaraguá que sou e sempre serei.

As estiagens, poluição, desmatamento, assoreamento, especulação imobiliária, ocupação desordenada de encostas e grotas e o desleixo público com a situação dos recursos hídricos da capital terminaram neste caos: o estopim de uma bomba que pode provocar a morte dos rios e mananciais de Maceió e o colapso na distribuição de água potável. Quanto mais poluído os rios estiverem mais cara ficará a tecnologia para recuperá-los.

As águas do Rio Paiol, que antes eram caudalosas e ligavam os bairros do Trapiche da Barra ao Vergel do Lago, não existem mais. Hoje, as águas viraram esgoto a céu aberto, despejado ao longo da favela que corta a margem da Lagoa Mundaú. Era um rio fundo, limpo, com porto de barcos na Rua Formosa, onde se pescava com caiçara e tarrafa muita tainha, bagre e camorim.

A recomposição de matas ciliares e procedimentos de monitoração, com fiscalização são a única forma de salvar os rios. Se não houver renovação dos poços a tendência é secar. Os rios de Maceió, com relação à calha original, tiveram uma perda sensível de volume nos últimos anos.

O escritor José Lins do Rego, autor do romance Riacho Doce, uma das praias mais abrasivas de Maceió, estaria hoje de olhos arregalados e com a mão tapando o nariz, diante do mau cheiro vindo das águas sujas e fétidas do Riacho Doce, que serviu de cenário para a minissérie homônima que fez sucesso na rede Globo, com a louríssima Vera Fischer.

Este texto pode ser considerado uma denúncia, um aviso, mas na verdade ele é um clamor. Um clamor verdadeiro de um maceioense para que o poder público abra o olho, e faça alguma coisa, senão vai virar conto da carochinha ou conversa para boi dormir. O fato é que está todo mundo vendo, cruzando por eles todos os dias, inclusive os veículos com ar-condicionado da frota oficial. É isso aí, até a próxima postagem.


Cena marcante do Riacho Doce degradado - Foto: Neno Canuto


Rio Jacarecica poluído - Foto: Lula Castello Branco

Riacho Cardoso petrificado - Foto: Lula Castello Branco

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