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Maceió/Al, 23 de janeiro de 2018

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29/09/2017 às 12:11

O Chico de Anadia

Sabino Fidélis de Moura (*)

Há quem diga terra maldita! Maldito é quem não sabe cuidar dela...

Não se deve guardar as palavras, ou você as fala, as escreve, ou elas te sufocam.

Vivo ao escrever este bilhete — um sentimento; não muito habitual, não gosto de maldizer, bafejar o "Quanto pior melhor" e nem tampouco bradar o ocaso...

E nunca pronunciarei, profetizarei a catástrofe!

Quando ouvi pela primeira Paulo Diniz catando: E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou...

Naquele momento no auge da minha juventude, gozava de muitas alegrias... Padecia da angústia de ver a terra por quem sou apaixonado ser torpedeada com devaneios e pilhérias...

Antes me deixem falar do Chico: Um homem de baixa estatura, cabeçudo, troncudo, olhos verdes e grandes, dentes separados, voz rouca e estridente.

Nasceu num ambiente rude e de maledicências...

Sofreu e cresceu comendo o famoso "pão que o diabo amassou" não é querendo lhe dar um habeas corpus, mas o nosso personagem não proseava versos nem poesias.

Ouvi várias vezes o Chico da Odete esbravejar: "Aqui só tem jeito soltando uma bomba, bem no meio da praça".

Também pudera, mesmo sem ser alfabetizado sofria na pele os efeitos da falta de emprego para dar provimentos a sustentação dos seus filhos.

Ainda mais o que se ouvia nos cantos e recantos da nossa cidade era uma piada de mau gosto "criada" por políticos da época, que dizia Anadia não ter jeito, pois Antônio Bom era doido, e por aí em diante!

Me recuso veementemente a pronunciar o restante do nomes citados, pois nunca concordei com os achincalhes desferidos aos nosso conterrâneos, homens e mulheres.

A nossa cidade começava a sentir o "gosto" da decadência, da desconstrução do seus sítio histórico, do seu legado cultural, das suas tradições, da sua sociedade civil organizada, das suas festas e glórias...

Começamos a sepultar nossos cantos, poetas, músicos, mestres, artistas, intelectuais, escritores, folguedos, nossas prosas e loas.

Coladinho a isso tudo, a triste partida para outras terras dos filhos deste chão abençoado...

O Chico da Odete também foi em busca de dias melhores, longe do seu torrão natal.

Como naquele tempo não tínhamos as redes sociais para interagir com as notícias em tempo real.

Ficamos à mercê das cartas, que nunca mais retornaram com notícias do José Francisco da Silva.

Há até quem conte que o Chico ficou milionário em São Paulo, com a reciclagem de lixo.

O duro mesmo é constatar que estão enterrando viva a nossa Anadia. Ela atingida em cheio pelo pacote de maldades da vida moderna.

Sucumbe com o advento das drogas, da prostituição e, desfralda a bandeira da incapacidade cultural, atreladas a mesquinhices do isolamento, em detrimento do bem comum.

O coletivo, o plural passou a ser um insulto, uma agressão aos arautos, paladinos do nada...

Perdoe-me! Não estou escrevendo um panfleto político ou partidário!

Não é endereçado pontualmente a nenhuma autoridade, quer seja de outrora, ou da atualidade.

Apenas estou grafando a minha indignação, revolta e, profunda tristeza em ter que cantarolar o restante da canção:

(*) É filho de Anadia


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