Arnóbio Cavalcanti

Crônica de uma falência fiscal anunciada: 7 sinais desde 2023

Economista Alexandre Manoel

Alexandre Manoel*

A economia brasileira chega ao final de 2025 exibindo um contraste incômodo: o lado real segue relativamente saudável, com taxa de desemprego relativamente baixa aos padrões históricos e crescimento moderado, mas os sinais de restrições fiscais se acumulam, mesmo após o governo federal restaurar sua capacidade de arrecadação.

De fato, no campo das receitas, o governo avançou: aprovou a reforma da tributação sobre o consumo, ajustou o Imposto de Renda e elevou a arrecadação federal, cujas receitas líquidas podem chegar perto de 19% do PIB em 2026. Porém, pelo lado das despesas, caminhou na direção oposta, esvaziando o ganho de recompensa que o Arcabouço Fiscal parecia que o Arcabouço Fiscal quando foi oferecido em 2023.

A regra fiscal nasceu como surpresa positiva, sobretudo porque o PT tinha sido a principal crítica do teto de gastos. Ao limitar o crescimento das despesas, o arcabouço parecia querer dar continuidade ao ajuste nos gastos que vinham sendo implantados desde 2016. Mas o governo optou por não mexer nas despesas estruturais e, ao contrário, reverteu políticas salário de mínimo, saúde e educação para padrões da era Dilma, além de tirar gastos da peça principal do Orçamento Geral da União (OGU) e ampliar operações de crédito com subsídio creditício. O resultado foi a corrosão da âncora fiscal.

O primeiro sinal dessa barreira é no gasto do governo central: as despesas passaram de 18% do PIB ao fim de 2022 para 18,8% em 2024 e otimização nesse avanço em 2025. Um avanço de 0,8 ponto do PIB em pouco menos de três anos é muito para um país com dívida alta e juros altos. Gasto que cresce mais do que o PIB costuma significar mais endividamento e maior prêmio de risco, exatamente o que estamos vendendo.

O segundo sinal é a completa ausência de austeridade nos subsídios. As renúncias tributárias seguem perto de 5% do PIB, o dobro do início dos anos 2000. E os subsídios financeiros e creditícios, embora ainda abaixo do pico de 2015, retornaram a subir por meio de manobras propostas pelo economista Marcos Mendes, em texto publicado em setembro/2025 pelo Insper: o governo transfere recursos para fundos privados e bancos públicos (tais como o FGO e o FGI-PEAC - com custo fiscal de R$ 14,5 bilhões anuais-, o Fundo Pé de Meia - com despesa de quase R$ 14 bilhões previstos para 2025-, o Fundo para eventos climáticos, o FNDIT e o Fundo Rio Doce) e executa políticas fora da peça principal do OGU por meio de financiamento financeiro e creditícios (um exemplo do Fundo Social, que teve R$ 20 bilhões desvinculados para empréstimos “verdes” e de calamidade, com juros subsidiados entre 4% e 6% ao ano), o que não aparece como despesa primária, mas aumenta um pouco a dívida de forma transparente.

O terceiro sinal é piora no resultado dos estados federais. Em 2022, elas ajudaram o ajuste fiscal com lucro recorde: R$ 275 bilhões, puxados pela Petrobras. A partir de 2023, o lucro caiu quase pela metade e, em 2024–25, resultou em déficits nas estatais não financeiras, porque o governo passou a usá-las como braço de investimento do Novo PAC. Os estados federais que ajudaram ao ajuste fiscal (até 2022) atrapalharam.

O quarto sinal é o mais sensível: afastado da perspectiva de restaurar o superávit primário no governo central. Em 2022, houve um superávit de 0,5% do PIB, ainda que de baixa qualidade, pois o desempenho foi impulsionado por receitas extraordinárias, como os dividendos recordes da Petrobras, o elevador de transferência de arrecadação sobre commodities e ganhos inflacionários, ele representou, à época, um sinal de colapso fiscal, alimentando a ideia de que a trajetória de queda poderia ser iniciada.

Desde 2023, porém, as despesas obrigatórias e os subsídios, sobretudo os créditos, cresceram, e o governo voltou ao déficit: o Tesouro já trabalhou com resultado negativo (bem acima do que era esperado) e os técnicos admitiram (nas entrelinhas) que não entregarão o equilíbrio prometido no arcabouço, enquanto o mercado já internalizou o déficit primário em torno de 0,6% do PIB, no biênio 2025-2026.

O quinto sinal é a necessidade de financiamento líquido do governo central, divulgado pelo Tesouro. Ela era de 4,5% do PIB em 2022 e saltou para 5,7% em 2024. Mesmo com recuperação em relação a 2023, o nível continua muito mais alto do que o observado antes da gestão atual. Em termos simples, o setor público federal está tendendo a se dividir mais para fechar as contas, o que reduz a margem de manobra e pressiona juros.

O sexto sinal é que tanto as projeções do governo quanto as do mercado apontam para alta da dívida bruta. Temer e Bolsonaro tentam estabilizar a dívida em torno de 74% do PIB. As estimativas atuais do Ministério da Fazenda e do Prisma Fiscal convergem para algo como 82% do PIB em 2026. E o mais preocupante: passado 2026, a tendência segue de alta, algo próximo de 3 pontos do PIB por ano.

O sétimo sinal de aumento na comparação internacional. Quando se observa a dívida bruta do Brasil em relação a países como a Grécia, segundo a métrica do FMI, nota-se que ambos conseguiram reduzir os seus níveis de endividamento até 2022, mesmo após a pandemia. No caso brasileiro, a dívida caiu de 87% do PIB em 2019 para 84% em 2022. Entretanto, a partir de 2023, o país voltou a piorar: a dívida subiu novamente para 87% em 2024, enquanto a Grécia manteve uma trajetória de redução. Ou seja, perdemos o momento em que era possível consolidar o ajuste fiscal que foi executado entre 2016 e 2022.

A conclusão é direta: o governo foi bem na receita, mas desmontou o ajuste pelo lado da despesa. Todas essas sete evidências indicam que a dívida não está em rota de sustentabilidade. Para evitar que essa situação atinja a economia real, com recessão e forte aumento do desemprego, é fundamental adotar medidas críveis pelo lado das despesas, capazes de garantir que o interrompa a trajetória de crescimento da dívida pública do país.

*Economista e sócio da Global Intelligence and Analytics ( GIA). Ex-secretário nos ministérios da Fazenda e da Economia (2018-2020).

Arnóbio Cavalcanti

Arnóbio Cavalcanti

Sobre

Doutor em Economia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, HHESS, França. Professor da Universidade Federal de Alagoas com linhas de pesquisa em Finanças Públicas, Economia do Setor Público, Macroeconometria e Desenvolvimento Regional.

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