Arnóbio Cavalcanti

A Geografia Econômica de Alagoas: Desafios e Oportunidades para 2026

Em 1950, o economista americano A. Lewis desenvolveu um modelo dualista para interpretar e iniciar o debate sobre as questões do desenvolvimento e, consequentemente, do subdesenvolvimento de uma localidade. Para Lewis, o subdesenvolvimento de um país decorre da justaposição de dois sistemas socioeconômicos distintos numa mesma região: os setores tradicionais (de subsistência) e os setores modernos (capitalistas). Ou seja, trata-se da convivência simultânea de dois modelos econômicos em estágios distintos de desenvolvimento em um mesmo território.

Ao analisar o desempenho de Alagoas à luz dos dados do IBGE, publicado em novembro passado, observa-se que as atividades econômicas realizadas nos municípios do estado produziram, em 2023, um Produto Interno Bruto (PIB) da ordem de R$ 89,7 bilhões, o que corresponde a 5,9% do PIB do Nordeste e a menos de 1% do PIB brasileiro.

Quando esse desempenho é observado segundo as três mesorregiões do estado — Sertão, Agreste e Leste —, os dados do IBGE indicam que a região do Sertão contribui com menos de 10% do PIB estadual, enquanto os municípios do Agreste respondem por cerca de 20% de tudo o que foi gerado em 2023. Já os municípios da região Leste concentram aproximadamente 70% de toda a produção estadual.

É importante destacar que as regiões do Sertão e do Agreste, juntas, reúnem 50 dos 102 municípios de Alagoas e ocupam aproximadamente 50% da área territorial do estado.

Essa radiografia evidencia uma forte deformação na geração de riqueza em Alagoas. Apesar de ocuparem metade do território e abrigarem cerca de 50% dos municípios, o PIB conjunto do Sertão e do Agreste representa menos de 30% do PIB estadual. Em contrapartida, os 52 municípios localizados na região Leste, mesmo ocupando área equivalente à das outras duas mesorregiões somadas, respondem por mais de 70% da produção econômica do estado. Configura-se, assim, um modelo de desenvolvimento marcado por um claro desequilíbrio regional.

No que se refere à matriz produtiva, constata-se que a economia do Sertão permanece fortemente baseada na produção agrícola de subsistência. Mesmo com a implantação do Canal do Sertão, cujo empreendimento encontra-se com quase metade das obras concluídas, ainda não houve a efetiva instalação de empreendimentos produtivos robustos nos perímetros irrigados estruturados pela Codevasf. O que se observa são apenas iniciativas pontuais, com uso limitado de inovação tecnológica.

A economia do Agreste, por sua vez, tem apresentado um dinamismo mais expressivo, influenciado sobretudo pelo papel econômico de Arapiraca, município que responde por cerca de 10% do PIB do estado, agrupando próximo de 40% do PIB da região.

Já a região Leste abriga o segmento mais dinâmico da economia alagoana, concentrando setores estratégicos como o sucroenergético, o químico-plástico e o turismo, além de reunir aproximadamente 60% dos serviços de educação superior e saúde do estado. A capital, Maceió, responde atualmente por quase 40% do PIB alagoano, tendo o setor de serviços e o turismo como principais vetores de crescimento.

Para avaliar a disparidade entre as mesorregiões, é suficiente notar que, dos dez municípios mais produtivos do estado, apenas dois — Arapiraca e Palmeira dos Índios — estão situados na região do Agreste. As restantes oito economias mais significativas do estado encontraram-se na mesorregião Leste, enquanto o Sertão não aparece nesse ranking. Alagoas adota um modelo de desenvolvimento que é caracteristicamente dual, conforme o que foi definido por A. Lewis.

Dados do último Censo Demográfico do IBGE indicam que a população de Alagoas, em 2022, era de 3.127.683 habitantes (aproximadamente 3,13 milhões), o que representa um crescimento modesto de apenas 0,21% em relação a 2010. Já a população de Maceió somava, em 2022, 957.916 habitantes, ocupando a quinta posição entre as capitais do Nordeste e a 16ª no Brasil, com crescimento em torno de 3% no mesmo período.

À luz desses dados, que ainda não contemplam os investimentos realizados em Alagoas nos anos 2024 e 2025, torna-se evidente a existência de uma dualidade no modelo de desenvolvimento de Alagoas. A economia estadual apresenta diferentes estágios de desenvolvimento produtivo entre suas regiões, exatamente como apontava Lewis. A permanência dessa coabitação de etapas distintas compromete o processo de desenvolvimento econômico do estado. Torna-se, portanto, indispensável que o poder público adote políticas públicas voltadas à convergência das cadeias produtivas regionais, com o objetivo de reduzir as desigualdades e promover um desenvolvimento mais equilibrado em todo o território alagoano.

Arnóbio Cavalcanti

Arnóbio Cavalcanti

Sobre

Doutor em Economia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, HHESS, França. Professor da Universidade Federal de Alagoas com linhas de pesquisa em Finanças Públicas, Economia do Setor Público, Macroeconometria e Desenvolvimento Regional.

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