Arnóbio Cavalcanti

A Tragédia dos Bens Comuns: Lições para o Futuro do Brasil

Arnobio Cavalcanti Filho

Formulada em 1968 pelo ecologista Garrett Hardin, a chamada Tragédia dos Bens Comuns tornou-se um conceito central da ciência econômica para explicar por que as sociedades falham na preservação de recursos compartilhados. A ideia é simples: quando algo pertence a todos, mas não é responsabilidade direta de ninguém, tende a ser explorado de forma excessiva até o esgotamento.

Hardin parte da premissa de que os indivíduos sejam racionalmente para maximizar seus próprios interesses. Essa lógica pode funcionar no âmbito da propriedade privada, mas se revela destrutiva quando aplicada a bens comuns, como florestas, oceanos ou a atmosfera. A soma de decisões individuais, aparentemente racionais, acaba gerando prejuízos coletivos.

Ao longo do tempo, economistas propuseram diferentes soluções para esse dilema, especialmente em contextos de crise nacional: a intervenção do Estado, a privatização ou a gestão comunitária dos recursos. Apesar dessas alternativas teóricas, o que se observa na prática é uma dificuldade crescente de cooperação, sobretudo diante dos desafios globais. Há pelo menos três exemplos recentes em que a Tragédia dos Bens Comuns se manifesta de forma evidente.

A crise climática, debatida na COP 30, realizada no Brasil, é o caso mais emblemático. O planeta é um bem comum por excelência, mas os governos continuam priorizando ganhos econômicos imediatos, mesmo diante de alertas científicos cada vez mais contundentes. O resultado é o avanço acelerado do aquecimento global, sem respostas políticas adequadas com a gravidade do problema.

Durante a pandemia de covid-19, a lógica da tragédia apareceu no cotidiano. O consumo excessivo e o estoque irracional de produtos essenciais provocaram o desabastecimento e aprofundaram as desigualdades regionais. Mais uma vez, o interesse individual se sobrepõe ao coletivo, com consequências sociais evidentes.

Esse raciocínio também pode ser estendido ao campo político. A democracia, afinal, é um bem comum: depende da confiança nas instituições, do respeito às regras e do compromisso com o diálogo. Quando líderes populistas atacam a ciência, deslegitimam eleições e incentivam a polarização, corroem esse patrimônio coletivo em benefício próprio.

No Brasil, esse processo se expressa na polarização extrema, no desprezo pelo conhecimento científico e na recusa sistemática ao diálogo. A política passa a operar como um jogo de soma zero, no qual a derrota do adversário importa mais do que a preservação do espaço público comum.

Sem cooperação e responsabilidade coletiva, a tragédia deixa de ser apenas um conceito econômico e se converte em realidade política. O desafio do país é interrompido esse processo antes que os danos se tornem irreversíveis.

Arnóbio Cavalcanti

Arnóbio Cavalcanti

Sobre

Doutor em Economia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, HHESS, França. Professor da Universidade Federal de Alagoas com linhas de pesquisa em Finanças Públicas, Economia do Setor Público, Macroeconometria e Desenvolvimento Regional.

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