A Guerra do Dólar: Como Trump usa a hegemonia monetária para controlar o Mundo
O verdadeiro motivo por trás da intervenção dos Estados Unidos contra a Venezuela e o Irã remonta a um ponto-chave da história econômica recente: o chamado Choque de Nixon, que ocorreu em 1971 , quando Washington suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, decretando o fim do sistema de Bretton Woods. Desde então, a questão deixou de ser drogas, terrorismo, teocracia ou democracia. O que está em jogo é a sobrevivência do dólar como moeda hegemônica global.
Em 1971 , um acordo estratégico entre os Estados Unidos e a Arábia Saudita distribuiu uma regra simples e poderosa: todo o petróleo do mundo seria comercializado em dólares. Em troca, os sauditas receberam proteção militar. Nascia o sistema do petrodólar , pilar da hegemonia econômica americana nas últimas cinco décadas.
Esse arranjo criou uma demanda artificial e permanente pela moeda dos EUA. Para comprar petróleo, todos precisam de dólares. O resultado é conhecido: Washington pode emitir moeda sem lastro, financiar déficits históricos, sustentar guerras e importações avaliações, enquanto exige austeridade fiscal do resto do mundo — ainda que jamais tenha apresentado superávits públicos relevantes.
A Venezuela e o Irã tornaram-se, nesse momento, uma ameaça no momento em que decidiram romper essa lógica.
Esses dois países, juntos, possuem mais de 460 bilhões de barris de petróleo , o que corresponde a cerca de 30% das reservas comprovadas do planeta . Seus “crimes”, porém, não foram a existência dessas riquezas, mas a decisão de comercializá-las em yuan, euro e rublo , além de buscar entrada no BRICS — bloco que, sob a liderança de países como Brasil, Índia e China, vinham discutindo a criação de sistemas de pagamento fora da órbita do dólar.
A resposta americana veio na forma de sobretaxas de importação de 50% impostas ao Brasil e à Índia. Bastou que o presidente Lula e o primeiro-ministro Narendra Modi deixaram de pautar a criação de uma moeda única do BRICS para que a tributação fosse extinta.
Nada disso é inédito.
Em 2000 , Saddam Hussein anunciou que o petróleo iraquiano passaria a ser vendido em euros. Três anos depois, o Iraque foi invadido. As alegadas “armas de destruição em massa” nunca foram encontradas.
Em 2009 , Muammar Gaddafi propôs a criação de uma moeda africana lastreada em ouro para a venda de petróleo. Em 2011, a OTAN bombardeava a Líbia. O projeto do dinar de ouro morreu junto com seu idealizador.
Agora é Nicolás Maduro .
A Venezuela vende hoje mais petróleo do que Iraque e Líbia juntos, detém as maiores reservas do mundo e comercializa parte significativa de sua produção em yuan, alinhando-se a China, Rússia e Irã.
E agora é o aiatolá Ali Khamenei .
O Irã é o quinto maior produtor de petróleo do mundo e possui a terceira maior reserva comprovada. Estima-se que cerca de 90% de suas exportações tenham como destino a China.
Coincidência? Difícil sustentar essa tese.
As autoridades americanas já chegaram a classificar o petróleo venezuelano como “ riqueza americana roubada ”. Donald Trump, por sua vez, afirmou que, se as “matanças” no Irão não “cessarem”, os Estados Unidos poderão promover uma intervenção militar.
A lógica é cristalina : os recursos naturais de outros países são legítimos enquanto servem aos interesses de Washington.
O problema é que o sistema do petrodólar começa a dar sinais evidentes de esgotamento . A Rússia negocia energia fora do dólar. O Irã faz isso há anos. A Venezuela vinha aceitando o yuan em parte de suas vendas. A China criou um sistema alternativo ao SWIFT. O BRICS avança na construção de sua própria arquitetura financeira.
Diante disso, o discurso americano em defesa da “democracia” é cada vez mais vazio. Os Estados Unidos apoiam regimes sem eleições sempre que lhes convém. Seu principal aliado no Oriente Médio, a Arábia Saudita , permanece como um dos países mais repressivos do mundo , governado por uma família real com poder absoluto.
A mensagem enviada ao mundo é inequívoca: desafie o dólar e você será punido .
O efeito, porém, pode ser o oposto. Quanto mais a hegemonia do dólar é imposta pela força, mais países percebem que precisam se libertar dela o quanto antes.
Talvez a Venezuela e o Irã não sejam o problema. Talvez o problema seja um sistema que está chegando ao limite.