O Desafio da Previsão Econômica do Brasil para 2026: Teoria e Prática
A economia brasileira encerrou 2025 com crescimento aproximado de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), confirmando uma desaceleração em relação ao avanço de 3,4% registrado em 2024. O resultado refletiu, sobretudo, os efeitos de uma política monetária fortemente restritiva adotada ao longo do ano.
A taxa básica de juros (Selic) atingiu 15% ao ano em junho e permaneceu nesse patamar até dezembro, em um esforço do Banco Central para conter pressões inflacionárias. Ainda assim, a inflação oficial fechou o ano em 4,26%, abaixo do teto da meta, sinalizando relativo sucesso da política de desinflação.
Apesar do elevado custo do crédito, o mercado de trabalho apresentou resiliência, com a taxa de desemprego recuando para mínimas históricas. O desempenho do emprego ajudou a sustentar o consumo das famílias e a amortecer os impactos da desaceleração econômica. No mercado financeiro, o cenário também foi positivo: o Ibovespa atingiu níveis recordes, superando os 164 mil pontos, impulsionado por expectativas de estabilização macroeconômica e por resultados corporativos sólidos em setores específicos.
O quadro fiscal, contudo, permaneceu desafiador. O resultado nominal do setor público consolidado, que engloba o resultado primário e o pagamento de juros da dívida, registrou déficit de R$ 1.062,6 bilhões, o equivalente a 8,34% do PIB em 2025. Em 2024, o déficit havia sido de R$ 998,0 bilhões, ou 8,47% do PIB, evidenciando a persistência do desequilíbrio das contas públicas.
Diante desse cenário, surge a questão central: é possível projetar com segurança o comportamento da economia brasileira em 2026?
O que diz a teoria econômica
A construção de cenários futuros tornou-se um dos campos mais relevantes da economia contemporânea. No Brasil, decisões de empresários, consumidores e investidores são fortemente influenciadas por projeções macroeconômicas elaboradas por instituições de pesquisa. Para o setor público, o princípio é semelhante, sintetizado no conhecido axioma segundo o qual “governar é prever”.
Essa centralidade da previsão econômica, no entanto, nem sempre ocupou posição de destaque na teoria. Antes da Revolução Keynesiana, nos anos 1930, predominava a Lei de Say, segundo a qual a oferta seria capaz de criar sua própria demanda. Nesse modelo, os preços funcionariam como mecanismo automático de ajuste, equilibrando oferta e demanda sem necessidade de intervenção do Estado.
A ruptura keynesiana e a demanda efetiva
John Maynard Keynes rompeu com esse paradigma ao formular o conceito de Demanda Efetiva. Para o economista britânico, não é a oferta que gera a demanda, mas sim a expectativa de consumo que determina o nível de produção. Essa interpretação passou a orientar grande parte das políticas econômicas adotadas no pós-guerra.
A divergência em relação aos neoclássicos era profunda. Para essa escola, o nível de emprego estaria diretamente associado ao custo da mão de obra: salários mais baixos estimulariam o investimento. Keynes rebateu esse argumento ao demonstrar que a compressão salarial reduz o poder de compra dos trabalhadores, limita o consumo e pode conduzir a economia à recessão.
Nesse contexto, o investimento passa a depender menos do custo do trabalho e mais das expectativas de vendas futuras. As decisões empresariais, segundo Keynes, não são plenamente racionais, sendo influenciadas pelo chamado “espírito animal”, combinação de confiança, intuição e incerteza diante do futuro.
Antecipações adaptativas e racionais
A partir dos anos 1960, economistas neoclássicos reagiram às teses keynesianas com o desenvolvimento da teoria das antecipações adaptativas. Para Milton Friedman, os agentes econômicos aprendem com a experiência passada e ajustam gradualmente suas expectativas. Ao perceberem aumentos persistentes de preços, trabalhadores passam a reivindicar reajustes salariais, incorporando a inflação às suas decisões.
O debate avançou com a formulação da teoria das antecipações racionais, proposta por John Muth e aprofundada por Robert Lucas, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1995. Segundo essa abordagem, os agentes utilizam todas as informações disponíveis de forma racional, cometendo poucos erros sistemáticos de previsão.
Nesse modelo, empresários, trabalhadores e governos antecipam os efeitos das políticas econômicas em tempo real. Como consequência, políticas monetária, fiscal ou orçamentária tenderiam a produzir apenas efeitos sobre os preços, sem impacto duradouro sobre o nível de produção ou emprego.
A conclusão é clara: se os agentes antecipam racionalmente as ações do governo, a eficácia das políticas econômicas como instrumento de estímulo ao crescimento torna-se limitada, uma vez que o mercado se ajusta rapidamente, neutralizando tentativas de intervenção. É por essa razão que os economistas estão sempre errando em suas previsões.