Arnóbio Cavalcanti

Antes do ajuste, o diagnóstico: Heranças condicionam, mas não determinam trajetórias fiscais

Alexandre Manoel

Nos dias 12 e 13 de fevereiro foram publicados na Folha de S. Paulo , respectivamente, um artigo do economista Bráulio Borges e uma matéria com declarações do secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, a respeito da política fiscal no período anterior a 2023.

Não escrevo estas linhas em defesa de governo algum - passado ou presente. Em política fiscal, o único compromisso relevante deve ser com o diagnóstico correto. Sem diagnóstico não há ajuste sustentável; há apenas alternância de narrativas. O objetivo aqui não é revisitar disputas políticas, mas esclarecer restrições econômicas que continuarão operando independentemente do governo de plantio.

Escrevo porque o debate recentemente voltou a assumir um formato conhecido da história econômica brasileira: cada período precisa ser descrito como especificações virtuosas ou desastrosas. É politicamente compreensível, mas é improdutivo economicamente. O país não precisa de um imposto Fla-Flu, e sim entende sua trajetória.

Metáforas fortes e dados fracos

A discussão reacendeu a partir da afirmação de que o governo anterior teria promovido “uma espécie de estupro das contas públicas”. Metáforas têm utilidade retórica, mas também exigem obrigações analíticas. Uma mudança dessa magnitude deveria aparecer nos indicadores estruturais.

O estudo que realizei com Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Samuel Pessoa, publicado neste blog do IBRE (outubro de 2024), estimou a herança fiscal estrutural entre governos:

* Dilma → necessidade de ajuste de 3,5% do PIB;

* Temer → 1,2% do PIB;

* Bolsonaro → 0,7% do PIB.

Há muitas interpretações possíveis para esses números. Há apenas uma impossível: estruturas estruturais crescentes até 2022 . Independentemente das opções políticas, a posição estrutural das contas públicas melhora ao longo do tempo.

Se os dados são aceitos, a metáfora deixa de ser descrição e passa a ser juízo retórico - e a política fiscal não pode depender disso.

O erro recorrente do debate fiscal brasileiro

O artigo de Bráulio Borges organiza a crítica ao período anterior a partir de seis fatores específicos: Bolsa Família, emendas parlamentares, “tese do século”, transferências federativas, BPC e Fundeb. Todos podem ser discutidos isoladamente. Mas o problema não está nos itens, e sim no método.

O debate fiscal brasileiro frequentemente confunde três dimensões distintas:

1. decisões intertemporais do sistema político;

2. choques institucionais acumulados; e

3. escolhas discricionárias de governo.

Sem separar essas camadas, qualquer ocorrência histórica produzirá erros errados. O Fundeb é o melhor exemplo disso.

Fundeb: quando o tempo da política não coincide com o tempo do mandato

O novo Fundeb nasce da PEC 15/2015 e culmina na EC 108/2020. A complementação da União sobe de 10% para 23% após anos de negociações técnicas e políticas.

Durante esse período ocorreram inúmeras rodadas técnicas na Casa Civil e no Congresso tentando calibrar o desenho do programa com base em evidências empíricas e literatura educacional. O objetivo nunca foi impedir a expansão, politicamente inviável, restando mitigar seus custos e melhorar a eficiência.

O ponto relevante para a memória institucional é simples: não foi política de um governo; foi decisão intertemporal do sistema político.

A expansão foi construída ao longo de vários mandatos, aprovada por ampla maioria parlamentar e defendida, em momentos distintos, por atores de todo o espectro político. Atribuir seu impacto fiscal a um único período presidencial equivale a interpretar um fenômeno estrutural a partir de um recorte conjuntural.

O mesmo raciocínio resolve boa parte dos demais pontos: são fenômenos institucionais acumulados, não decisões discricionárias pontuais.

Heranças importam, mas não determinam trajetórias

Na matéria de 13 de fevereiro, o secretário Rogério Ceron reage a críticas de Mansueto Almeida. Independentemente de concordâncias pontuais, sua trajetória profissional não é compatível com leituras negacionistas de dados nem com a ideia de que o período anterior teria sido um “mar de rosas”. O debate relevante, portanto, deve permanecer empírico, não biográfico.

Houve condição inicial adversa? Evidentemente sim. Mas menor que a observada em 2019 e muito inferior à de 2016 - ponto raramente controverso entre economistas, ainda que frequentemente disputado nas narrativas.

Trajetórias fiscais, contudo, são definidas sobretudo pelas decisões tomadas após a posse. Como observou Samuel Pessoa (Folha, 14/02/2026):

“Se, no quadriênio do terceiro mandato de Lula, os gastos com saúde e educação crescessem apenas com a população e o salário mínimo acompanhasse apenas a inflação passada, o gasto público em 2026 seria R$ 210 bilhões menor.”

Em outras palavras, houve um ponto de partida adverso, mas não um determinismo fiscal. A dinâmica recente não decorre apenas da condição herdada, e sim, principalmente, da opção por expandir despesas permanentes indexadas.

O fato estilizado central: o comportamento do gasto

Entre 2019 e 2022:

* crescimento real acumulado da despesa: 5,6%;

* pandemia no período;

* queda da despesa/PIB ao final.

Entre 2023 e 2025:

* crescimento real acumulado da despesa: 15,4%;

* aumento real de R$ 324,5 bilhões, mais de 2,5 vezes em metade do tempo, em comparação ao período 2017-2022.

Uma forma simples de interpretar política fiscal é observar o comportamento do gasto ao longo e após a emergência. Nesse critério, houve consolidação até 2022.

O “ponto cego” do debate: execução orçamentária

O debate fiscal brasileiro costuma se concentrar no resultado primário. A dívida, porém, responde ao fluxo econômico efetivo, isto é, ao que de fato é gasto, pago ou postergado. É nesse contexto que entra o conceito de float de restos a pagar : despesa comprometida, mas adiada para exercícios futuros.

Tecnicamente, o float corresponde ao valor das despesas empenhadas e/ou liquidadas inscritas em restos a pagar que permanecem sem quitação ao longo do exercício seguinte. Não se trata apenas de atraso administrativo: é uma forma de financiamento implícito do gasto público.

A despesa já ocorreu no ponto de vista econômico — o bem foi contratado, entregue ou o serviço prestado —, mas o pagamento é transferido para o futuro. Quando esse mecanismo cresce de forma persistente, o resultado primário medido deixa de reflexão integralmente o esforço fiscal efetivo, e parte do ajuste passa a ocorrer por postergação de pagamentos.

Em termos econômicos, o float funciona como uma dívida de prazo curtíssimo não capturada integralmente pelos indicadores tradicionais. No artigo “É o mercado míope em relação à política fiscal brasileira?” (RBE, 2010), mostramos formalmente que a persistência de um carro flutuante elevado e crescente implica trajetória explosiva da dívida pública.

A série histórica apresentada em artigo nosso publicado no Valor Econômico em 13 de fevereiro deste ano indica uma mudança clara de regime:

| Período | Dinâmica do float |

| --------- | ----------------- |

| 2003-2005 | baixa |

| 2006-2016 | elevado |

| 2017-2022 | queda |

| pós-2023 | nova elevação |

Se o resultado fosse apenas contábil, não haveria reversão. Trata-se, portanto, de alteração no comportamento fiscal.

O float conecta execução orçamentária, execução financeira e trajetória da dívida. Ignorá-lo conduzirá a diagnósticos bastante benignos, e, consequentemente, a juros persistentemente elevados.

Incorporando despesas fora da meta, mecanismos parafiscais e a variação do float , o esforço eficaz de estabilização da dívida aproximada de 4% do PIB – ordem de grandeza incompatível com ajustes marginais.

O enquadramento do debate então se altera: a dívida não cresce por conta da herança recebida nem por causa dos juros; os juros refletem a trajetória esperada da dívida.

Conclusão: primeiro acordo sobre os fatos

A política fiscal brasileira muitas vezes falha não por falta de técnica, mas por falta de acordo sobre fatos estilizados mínimos.

Até 2022 houve melhorias estruturais, imperfeitas, é verdade, porém inequívocas.

Após 2023, observa-se a variação da despesa e a interrupção da execução orçamentária e financeira. Reconhecer isso não encerra o debate. Ele apenas o torna possível.

Sem essa pacificação, continuaremos discutindo as preocupações. Com ela, podemos discutir soluções, requisitos específicos no controle estrutural do gasto obrigatório.

Para além da interpretação histórica, a implicação prática é direta: sem redução do crescimento real da despesa e da dinâmica do float , a convergência da dívida exigirá juros estruturalmente elevados por período prolongado.

O debate fiscal relevante deixa de ser retrospectivo e passa a ser condicional: quais medidas serão capazes de alterar a trajetória esperada da despesa nos próximos anos?

A política econômica começa justamente quando termina a disputa sobre o passado.

Arnóbio Cavalcanti

Arnóbio Cavalcanti

Sobre

Doutor em Economia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, HHESS, França. Professor da Universidade Federal de Alagoas com linhas de pesquisa em Finanças Públicas, Economia do Setor Público, Macroeconometria e Desenvolvimento Regional.

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