Arnóbio Cavalcanti

O efeito borboleta na economia: como mudanças aparentemente pequenas podem impactar a economia mundial

Arnobio Cavalcanti Filho

Num ambiente globalizado como o atual, marcado por polarizações políticas, turbulências nos mercados financeiros e tensões entre nações, decisões continuam sendo tomadas acreditando na “condição de certeza” — mesmo quando se sabe que ela, na prática, não existe.

No campo econômico, a tentativa de reduzir a incerteza também é permanente. Embora seja consenso que nenhuma economia esteja imune a eventos imprevisíveis, a teoria econômica tem avançado na construção de modelos cada vez mais sofisticados para explicar — e, em alguma medida, antecipar — o comportamento aleatório dos sistemas.

Os pioneiros

Os primeiros estudos que inspiraram economistas a explorar esse terreno remontam aos matemáticos Henri Poincaré (1854–1912) e Aleksandr Lyapunov (1857–1918).

Foi Poincaré quem demonstrou a existência de sistemas de equações com múltiplas soluções possíveis para um mesmo problema. Ao transpor essa ideia para a economia, estudiosos perceberam que uma mesma decisão de um agente econômico pode gerar resultados distintos — um verdadeiro caos.

Já Lyapunov associou sistemas econômicos à teoria da probabilidade e mostrou que resultados econômicos podem ser “instáveis”. Pequenas variações em uma variável econômica podem provocar mudanças radicais na economia — conceito que economistas passaram a relacionar às flutuações cíclicas da atividade econômica.

As 4 principais teorias do “acaso” na economia

1. O efeito borboleta

O meteorologista americano Edward Lorenz (1917–2008) popularizou, na década de 1960, o chamado “efeito borboleta”, sintetizado na célebre metáfora de que o bater de asas de uma borboleta na Amazônia pode desencadear grandes eventos atmosféricos em Alagoas, por exemplo.

Na atual economia globalizada, a analogia é evidente. Choques aparentemente localizados — como eventos climáticos extremos ou tarifaço e bombardeio no Irã de Trump — podem repercutir no PIB, nas cadeias de preços e na inflação de alimentos em diferentes países..

2. Fractais

O termo “fractal” foi cunhado em 1967 pelo matemático Benoît Mandelbrot. Fractais são estruturas geométricas autossimilares em múltiplas escalas — isto é, partes menores reproduzem o padrão do todo. Um exemplo clássico é a couve-flor, cujos ramos repetem a forma do vegetal completo.

Nos mercados financeiros, especialmente no Ibovespa, operadores e analistas utilizam conceitos fractais dentro da moderna teoria de finanças para projetar comportamentos futuros de preços, retornos e riscos de ativos.

3. O modelo de Black-Scholes

Conhecido também como modelo Black-Scholes-Merton, esse foi o primeiro modelo amplamente difundido para precificação de opções.

Desenvolvida em 1973 por Fischer Black, Myron Scholes e Robert C. Merton, a equação tornou-se referência nos mercados financeiros globais. Apesar das críticas sobre as premissas de normalidade dos retornos —, o modelo segue amplamente utilizado na precificação de ativos em mercados europeu, americano e brasileiro.

4. O cisne negro

O matemático e estatístico Nassim Nicholas Taleb popularizou a ideia dos eventos de “cisne negro” — acontecimentos raros, de grande impacto e praticamente impossíveis de prever.

Autor de obras como O Cisne Negro e Iludidos pelo Acaso, Taleb argumenta que grande parte dos modelos econômicos subestima a ocorrência desses choques extremos. Exemplos frequentemente citados incluem a disseminação da internet, os ataques de 11 de setembro e a pandemia de Covid-19.

Taleb recorre à metáfora do “peru de Bertrand Russell”: alimentado diariamente, o animal passa a acreditar na regularidade de sua vida — até ser abatido inesperadamente. Para o autor, algo semelhante ocorre com agentes econômicos excessivamente confiantes em suas previsões e, de repente, aparece um caso do Banco Master, alterando todo o quadro político e econômico.

Conclusão

A evolução das teorias econômicas mostra que o esforço para compreender a incerteza avançou de forma significativa nas últimas décadas. Modelos matemáticos, sistemas dinâmicos e ferramentas estatísticas ampliaram a capacidade de análise dos mercados e comportamento dos indicadores macroeconômicos.

Ainda assim, a principal lição desses próprios modelos é a de humildade analítica: a economia não é um sistema plenamente determinístico. Choques inesperados e eventos extremos continuam fazendo parte da dinâmica econômica.

Dessa forma, mais do que eliminar o “acaso” — tarefa impossível —, o desafio contemporâneo de economistas, governos, empresas e investidores será em desenvolver estratégias capazes de resistir a um ambiente econômico que permanecerá, inevitavelmente, incerto.

Arnóbio Cavalcanti

Arnóbio Cavalcanti

Sobre

Doutor em Economia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, HHESS, França. Professor da Universidade Federal de Alagoas com linhas de pesquisa em Finanças Públicas, Economia do Setor Público, Macroeconometria e Desenvolvimento Regional.

Arquivos

Selecione o mês