Entre o freio e o acelerador: o dilema fiscal que está travando o Brasil
A política fiscal brasileira, especialmente entre 2023 e 2026, expõe um dos conflitos mais marcantes da economia nacional recente: de um lado, o governo Lula, que aposta em uma estratégia expansionista para impulsionar crescimento e inclusão social; de outro, o mercado financeiro — simbolizado pela chamada “Faria Lima” — que insiste na necessidade de austeridade para conter o avanço da dívida pública. Mais do que uma divergência técnica, trata-se de um embate de visões sobre o papel do Estado na economia.
Esse confronto, no entanto, costuma ser apresentado de forma simplista, como uma escolha binária: cortar gastos ou expandi-los. Essa narrativa empobrece o debate. A questão central não é escolher entre austeridade e estímulo, mas compreender quando, como e para quê o Estado deve intervir.
Nos últimos oito anos, o país experimentou, de forma bastante clara, essas duas abordagens. Durante o governo Bolsonaro, prevaleceu uma política fiscal contracionista, orientada pelo controle das despesas e pela prioridade no cumprimento de obrigações financeiras. O resultado foi um relativo controle da dívida pública, mas também um crescimento econômico tímido e uma recuperação lenta após choques relevantes, como a pandemia.
A opção por um Estado mais contido refletiu uma visão específica: a de que o equilíbrio fiscal, por si só, seria suficiente para criar as bases do desenvolvimento. A realidade, contudo, mostrou seus limites. Sem investimento consistente e com baixa capacidade de indução econômica, o crescimento permaneceu aquém do necessário para promover avanços sociais mais amplos.
Com a chegada do governo Lula III, houve uma inflexão clara. A política fiscal passou a operar de forma expansionista, com aumento de gastos, abandono da política do “teto do gasto”, recomposição de políticas públicas e valorização do salário mínimo. Os efeitos foram rápidos: aceleração da atividade econômica, melhora significativa no mercado de trabalho e maior dinamismo da demanda interna.
Ainda assim, é preciso reconhecer que o estímulo fiscal não é isento de custos. A elevação das despesas públicas pressiona a trajetória da dívida e impõe desafios à credibilidade fiscal do país. Ignorar esse fator seria repetir erros já conhecidos da história econômica brasileira recente.
Há, porém, um ponto que precisa ser afirmado com clareza: o Brasil de hoje não pode prescindir de uma política fiscal ativa. Em um país marcado por desigualdades sociais profundas, baixa produtividade e gargalos estruturais, a simples retração do Estado não é capaz de gerar desenvolvimento consistente. A experiência recente sugere que o ajuste fiscal, quando desvinculado de uma estratégia de crescimento, tende a produzir estagnação.
Isso não significa defender um Estado sem limites. Pelo contrário. A expansão fiscal precisa vir acompanhada de responsabilidade, eficiência no gasto e compromisso com resultados. O problema nunca foi gastar — sempre foi gastar mal.
O verdadeiro desafio, portanto, não está em escolher entre o modelo de Bolsonaro ou o de Lula, mas em superar essa dicotomia. O Brasil precisa de uma política fiscal que combine disciplina e capacidade de investimento; que controle a dívida sem sufocar o crescimento; e que entenda o orçamento público como instrumento de desenvolvimento — e não apenas como ferramenta contábil.
Em última instância, a pergunta não é qual governo foi mais eficaz, mas qual estratégia é capaz de responder aos desafios reais do país. E, nesse sentido, a evidência recente aponta para uma conclusão incômoda para os defensores da austeridade rígida: sem crescimento, não há ajuste fiscal que se suste.