Arnóbio Cavalcanti

Governo Lula 4: fiscalistas ou desenvolvimentistas? O dilema da política econômica

O resultado das urnas garantiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a continuidade no comando do país. Entretanto, a disputa acirrada e a expressiva votação obtida pelo adversário sinalizam que a política econômica do governo está no centro do debate nacional. Uma parcela do eleitorado demonstrou receptividade à proposta de maior controle dos gastos públicos, enquanto outra optou pela manutenção dos direitos conquistados, especialmente dos programas e benefícios sociais.

O grande desafio do governo Lula 4 será evitar que uma eventual deterioração dos indicadores fiscais comprometa a economia real. A reação negativa dos mercados financeiros ocorrida no dia seguinte a vitória do presidente, com a disparada do dólar e dos juros futuros e a queda expressiva da Bolsa de Valores, evidencia a preocupação dos investidores com os rumos da política econômica.

O dilema do presidente Lula será encontrar uma fórmula capaz de organizar as contas públicas sem comprometer o atendimento às demandas sociais de seu eleitorado. O objetivo será estabilizar a dívida pública, controlar as despesas e reduzir a dependência de novos aumentos de arrecadação. Para isso, o presidente precisará adotar uma postura pragmática e escolher nomes para os principais ministérios econômicos que transmitam credibilidade e confiança aos agentes econômicos.

Disputa entre fiscalistas e desenvolvimentistas

A política econômica do novo governo ainda está em fase de definição, em meio a intensas articulações nos palácios do Planalto e da Alvorada. A tendência é que o desenho da estratégia econômica resulte do embate entre duas correntes: de um lado, integrantes da equipe atual que defendem uma orientação mais fiscalista e ortodoxa, com ênfase no equilíbrio fiscal; de outro, nomes históricos do PT, alinhados a uma visão heterodoxa e desenvolvimentista, que atribui ao Estado um papel mais ativo na promoção do crescimento econômico.

O caminho mais consistente para o governo Lula 4 talvez seja recuperar os fundamentos da política econômica adotada no primeiro mandato, entre 2003 e 2006. Naquele período, o governo demonstrou capacidade de compreender as condições da economia brasileira e assumiu compromissos com a responsabilidade fiscal, o equilíbrio das contas públicas e a estabilidade macroeconômica.

A vitória eleitoral não deve ser interpretada, necessariamente, como um aval irrestrito à política econômica implementada no terceiro mandato. Uma parcela significativa da população manifesta insatisfação com o custo de vida, a situação fiscal e as perspectivas econômicas do país.

Os indicadores macroeconômicos e a situação fiscal

A economia brasileira enfrenta desafios importantes, entre eles a desaceleração da atividade econômica, elevado nível de endividamento das famílias e das empresas, as pressões inflacionárias e o elevado nível das taxas de juros. Esse cenário é agravado pelo crescimento das despesas públicas sem a correspondente expansão das receitas. Além disso, o orçamento federal apresenta elevada rigidez, uma vez que a maior parte dos recursos está comprometida com despesas obrigatórias.

A dívida pública brasileira atingiu, em setembro, 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a R$ 11,1 trilhões, segundo os dados apresentados. Trata-se de um patamar elevado, que reforça a preocupação com a sustentabilidade das contas públicas.

Para 2027, o orçamento prevê R$ 2,83 trilhões em despesas primárias, das quais aproximadamente 90% são obrigatórias. A dimensão do problema fica ainda mais evidente quando se observa o impacto dos reajustes do salário mínimo sobre as despesas governamentais. Para cada R$ 1 de aumento representa aproximadamente R$ 413 milhões adicionais nos gastos públicos, em razão da vinculação do piso nacional a aposentadorias e benefícios sociais.

Esse quadro reduz significativamente a margem de manobra do governo para realizar investimentos, ampliar políticas públicas e estimular a atividade econômica.

O dilema da escolha da equipe econômica

Diante desse cenário, um eventual quarto governo Lula poderá recorrer a uma equipe econômica de perfil mais ortodoxo para enfrentar os desequilíbrios fiscais. A escolha do próximo ministro da Fazenda será um dos primeiros sinais concretos da orientação econômica que o governo pretende adotar.

Entre os nomes cogitados estão o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o vice-presidente Geraldo Alckmin. Associados a uma corrente mais fiscalista, ambos defendem a continuidade e o aprofundamento do ajuste das contas públicas, incluindo o aperfeiçoamento do arcabouço fiscal e o controle mais rigoroso das despesas. A possibilidade de seus nomes integrarem a equipe econômica foi bem recebida pelo mercado financeiro.

Vale lembrar que, em seu primeiro mandato, entre 2003 e 2006, Lula surpreendeu os meios político e econômico ao formar uma equipe comprometida com uma orientação mais ortodoxa. Naquele período, nomes como os economistas Marcos Lisboa, Joaquim Levy e Murilo Portugal estiveram associados ao debate e à formulação de políticas voltadas à responsabilidade fiscal e à estabilidade econômica.

Ao longo dos dois primeiros mandatos de Lula, entre 2003 e 2010, a economia brasileira apresentou resultados expressivos, com redução da inflação, manutenção de uma política fiscal mais rigorosa nos primeiros anos, crescimento do PIB e avanços na distribuição de renda. O desempenho econômico do período ficou associado ao chamado "milagrinho brasileiro", expressão utilizada para caracterizar a combinação de crescimento econômico e inclusão social observada naquele ciclo.

Lula 4 poderá repetir a estratégia do primeiro mandato?

A questão central, portanto, não está simplesmente em escolher entre fiscalistas e desenvolvimentistas, mas em encontrar uma combinação capaz de conciliar equilíbrio fiscal, crescimento econômico, ampliação das políticas públicas e inclusão social.

O governo precisará demonstrar que é possível preservar os programas sociais e, ao mesmo tempo, estabelecer limites claros para a expansão dos gastos públicos. A credibilidade da política econômica dependerá menos dos discursos e mais da capacidade de apresentar medidas concretas, estabelecer metas realistas e demonstrar compromisso com a sustentabilidade da dívida pública.

Diante desse cenário, fica a pergunta: em um eventual quarto mandato, Lula voltará a surpreender o mercado financeiro e a sociedade, como fez em 2003, ao apostar em uma equipe econômica de perfil mais fiscalista?

Arnóbio Cavalcanti

Arnóbio Cavalcanti

Sobre

Doutor em Economia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales, HHESS, França. Professor da Universidade Federal de Alagoas com linhas de pesquisa em Finanças Públicas, Economia do Setor Público, Macroeconometria e Desenvolvimento Regional.

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