Vertigem
VERTIGEM
Convivo, dia a dia, com a dor da perda de um filho. Convivo com a finitude nas limitações, ansiedades e medos de minha mãe, nos seus 80+. Sei que suportar a dor é um rasgar-se e remendar-se diário, vivendo na corda bamba sem olhar para o chão, porque muitas vezes não existe chão.
A poesia que me visita, em alguns momentos, pede folga. E eu fico com a crueza do dia, dos gestos, dos sentimentos humanos — muitas vezes não tão nobres quanto parecem ser. Quantas máscaras usadas por personagens que só se sustentam em um diálogo pré-fabricado. Lacan — ah, Lacan, que tanto me ensina — já afirmou que “a verdade tem estrutura de ficção”. Então, vamos ao circo!
Ah, mas eu acho circos tão enfadonhos! Não vejo a menor graça no palhaço! Desde criança, sempre achei o palhaço patético, deslocado do cenário, perdido entre bobo da corte e um impostor. E são tantos barulhos lá no circo... Desde criança, minha alma preferia o silêncio! Como o silêncio fala!
Mas, desde já, peço perdão aos palhaços e fico feliz que multidões se divirtam com eles. E as crianças... ah, como as crianças gostam dos palhaços! Eu sou a exceção que confirma a regra. Todo artista merece aplausos por trazer a arte em si e ajudar a fazer brotar sorrisos e encantamento onde, às vezes, há muita dor.
Olhar uma pedra e ver uma pedra faz parte da imersão no mundo real. Um olhar sem colírio nem óculos escuros: nu e cru! É assim que, na maioria das vezes, é possível transitar pela vida. Mas, sempre que posso, peço ao Criador que reacenda a chama que traz de volta ao meu ser a inspiração e a poesia. Fica mais fácil respirar, enxergar os seres que habitam o planeta Terra e até cumprimentar, elegantemente, os palhaços.
Texto: Eliana Custódio
@elianacustodiojornalista
@empoemar_se