Jorge Luiz Bezerra

O Cronômetro da morte e o algoritmo da Vida: a inteligência artificial como escudo contra a barbárie do feminicídio

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Resumo
Este artigo analisa a alarmante estatística da ONU de que uma mulher é assassinada por parceiros ou familiares a cada 10 minutos no mundo. Discute-se a ineficiência estatal e a existência das "cifras negras" (chiffres noir) que ocultam a real dimensão dessa violência. Propõe-se a integração da Inteligência Artificial (IA) nas estratégias de segurança pública e privada, utilizando análise preditiva e monitoramento em tempo real para mitigar esses crimes. O estudo conclui com uma crítica à letargia governamental e um apelo ao setor privado para o desenvolvimento de tecnologias de proteção à vida.

Abstract
This article analyzes the alarming UN statistic that a woman is killed by partners or family members every 10 minutes globally. It discusses state inefficiency and the existence of "dark figures" (*chiffres noir*) that hide the true extent of this violence. The integration of Artificial Intelligence (AI) into public and private security strategies is proposed, using predictive analysis and real-time monitoring to mitigate these crimes. The study concludes with a critique of governmental lethargy and a call tothe private sector to develop life-protection technologies.

1. Introdução: a eficiência da tragédia
É preciso parabenizar o Estado moderno e suas instituições de segurança pública pela consistência impecável. Poucas burocracias no mundo conseguem manter uma regularidade tão britânica quanto a demonstrada na contagem de corpos femininos. Enquanto governos debatem orçamentos e assinam tratados com canetas de ouro, o relógio da violência doméstica funciona com uma precisão suíça: a cada dez minutos, uma mulher é assassinada por alguém em quem confiava. É uma "eficiência" macabra que nenhuma política pública conseguiu, até hoje, desmantelar.

A leniência do poder público não é apenas uma falha administrativa; é quase uma política de Estado por omissão. Diante dos dados apresentados pelo United Nations Office on Drugs and Crime (UNODC) e pela ONU Mulheres , que apontam cerca de 50 mil mulheres e meninas foram mortas por parceiros íntimos ou familiares em 2024 – uma a cada 10 minutos – de acordo com novos dados
divulgados nesta terça-feira (25/11/2025), com níveis que permanecem inalterados apesar de anos de compromissos globais. (https://brasil.un.org/pt-br/30... %C3%ADntimos-ou-familiares).
Com efeito, percebe-se que a casa — o suposto santuário — é o lugar mais perigoso para uma mulher. No Brasil, onde os índices de feminicídio desafiam qualquer senso de civilidade, a resposta estatal continua analógica para um crime que exige urgência digital.

2. As cifras negras e a invisibilidade da dor
Para além dos corpos contados, há o abismo do que não se vê. Na criminologia, as "cifras negras" (chiffres noir de la criminalité) representam a diferença entre a criminalidade real e a criminalidade registrada. No contexto do feminicídio, essa zona obscura é aterrorizante.

Muitos feminicídios são inicialmente catalogados como homicídios comuns, suicídios duvidosos ou desaparecimentos, mascarando a motivação de gênero. Além disso, a cifra negra da violência prévia — as agressões, ameaças e coerções que antecedem a morte e nunca chegam a um Boletim de Ocorrência — impede que o sistema de justiça atue preventivamente. O assassinato é, frequentemente, apenas o ato final de uma longa peça de terror que o Estado não assistiu porque as cortinas estavam fechadas.

3. A Inteligência Artificial como agente de intervenção
Se a inteligência humana tem falhado na proteção dessas mulheres, é hora de convocar a Inteligência Artificial para o front. A IA não dorme, não prevarica e não julga a roupa da vítima. A integração de sistemas avançados com a polícia e empresas de segurança privada pode revolucionar a prevenção e a repressão.

3.1. Prevenção preditiva
Algoritmos de Machine Learning podem ser treinados para analisar vastos bancos de dados de ocorrências policiais, identificando padrões de escalada de violência que humanos deixam passar. Ferramentas de Processamento de Linguagem Natural (PLN) podem varrer relatos de ameaças em redes sociais ou mensagens (com autorização judicial) para calcular o "Risco de Feminicídio" em tempo real, alertando autoridades antes que o agressor compre a arma.

3.2. Repressão e resposta imediata
Empresas de segurança podem desenvolver wearables (dispositivos vestíveis) disfarçados de joias que, ao detectar alterações nos sinais vitais da vítima (pânico) ou palavras-chave de socorro, acionam drones autônomos e viaturas. Além disso, sistemas de reconhecimento facial integrados a câmeras urbanas podem alertarinstantaneamente se um agressor com medida protetiva se aproximar do perímetro da vítima, eliminando a dependência de a mulher ter que chamar a polícia enquanto é atacada.

4. Fundamentação teórica
A compreensão deste fenômeno exige um olhar multidisciplinar. No cenário internacional, Diana Russell, que popularizou o termo "femicide", nos lembra que este é o extremo de um ad continuum de terror contra as mulheres. A antropóloga argentina Rita Segato argumenta que o corpo da mulher é utilizado como um território de escrita para a mensagem de poder do agressor, uma pedagogia da
crueldade.

Pierre Bourdieu, em sua análise sobre a dominação masculina, explica como a violência simbólica se transmuta em violência física, naturalizando a posse. Já Kimberlé Crenshaw traz a vital perspectiva da interseccionalidade, mostrando como mulheres negras e pobres (a maioria das vítimas no Brasil) estão em uma encruzilhada de vulnerabilidades que o Estado ignora.

No Brasil, a saudosa Heleieth Saffioti foi pioneira ao denunciar que a violência de gênero não é fruto de patologias individuais, mas uma estrutura do patriarcado. Corroborando com a análise atual, Lourdes Maria Bandeira destaca como o feminicídio no Brasil é marcado pela crueldade e pela posse, onde a lei muitas vezes chega tarde demais.

5. Conclusão
Diante da carnificina diária, a burocracia estatal assemelha-se à descrição da "banalidade do mal" de Hannah Arendt: não necessariamente composta por monstros, mas por funcionários que, ao seguirem procedimentos ineficazes sem questionar, permitem que o mal floresça. No Brasil, a jurista Maria Berenice Dias tem sido uma voz crítica contundente, apontando que a Justiça, muitas vezes cega e lenta, tem as mãos sujas de sangue por não garantir a eficácia das medidas protetivas que ela mesma expede.

Não podemos mais esperar que o Estado, com sua estrutura paquidérmica, resolva sozinho um problema de tal magnitude. O setor privado, detentor das tecnologias de ponta em IA, tem o dever moral e a oportunidade de mercado de criar escudos digitais para essas mulheres. A tecnologia deve servir para preservar a vida, não apenas para otimizar lucros.

Apesar do cenário sombrio, é preciso manter a crença na capacidade de reinvenção humana. Como disse o psiquiatra austríaco e sobrevivente do Holocausto, Viktor Frankl: "Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos"*. Que mudemos, então, nossa abordagem, nossas ferramentas e nossa indignação, transformando a frieza dos algoritmos na esperança de dias em que nenhuma mulher será uma estatística de dez minutos.

Referências bibliográficas
1. ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

2. BANDEIRA, Lourdes Maria. Feminicídio: a morte anunciada. In: Revista Labrys, estudos feministas, 2014.

3. BOURDIEU, Pierre. *A Dominação Masculina*. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002.

4. CRENSHAW, Kimberlé. *Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color*. Stanford Law Review, 1991.

5. DIAS, Maria Berenice. A Lei Maria da Penha na Justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010.

6. FRANKL, Viktor E. Em Busca de Sentido*. Petrópolis: Vozes, 1991.

7. RUSSELL, Diana E. H. Femicide: The Politics of Woman Killing. New York: Twayne Publishers, 1992.

8. SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, Patriarcado, Violência. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.

9. SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.

10. UNODC. Global Study on Homicide: Gender-related killing of women and girls. Vienna: United Nations Office on Drugs and Crime, 2023.

Jorge Luiz Bezerra

Jorge Luiz Bezerra

Sobre

É professor universitário, advogado, Mestre em Direito pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), delegado de Polícia Federal aposentado, especialista em Política Criminal, Segurança Pública e Privada, além de autor de diversos livros e artigos

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