Jorge Luiz Bezerra

De Madoff ao Master - fraudes sistêmicas, regulação em crise e a urgência de punição exemplar

Vacaro

Resumo

Este artigo compara dois escândalos financeiros paradigmáticos — o esquema Ponzi de Bernard L. Madoff e a investigação sobre fraudes envolvendo o Banco Master e seu presidente Daniel Vorcaro — para evidenciar falhas estruturais na supervisão dos mercados de capitais. Analisa o modus operandi dos esquemas, o papel da reputação e das redes de influência na construção de uma aparência de legitimidade, e as omissões e limitações de órgãos reguladores como a SEC e a CVM. Examina também estratégias institucionais e midiáticas que deslocam o foco para tecnicismos, retardando responsabilizações. Conclui defendendo a necessidade urgente de investigação proativa e penas exemplarizantes para crimes financeiros de grande impacto sistêmico.

Abstract

This article compares two landmark financial scandals — Bernard L. Madoff’s Ponzi scheme and the fraud investigation involving Banco Master and its president Daniel Vorcaro — to highlight structural failures in capital market oversight. It analyzes the schemes’ modus operandi, the role of reputation and influence networks in creating a veneer of legitimacy, and the omissions and limitations of regulators such as the SEC and Brazil’s CVM. The article also examines institutional and media strategies that shift focus to technicalities, delaying accountability. It concludes by arguing for urgent proactive investigations and exemplar penalties for large-scale financial crimes with systemic impact.

Introdução

É curioso como o verniz da respeitabilidade transforma números falsos em credenciais: um ex-presidente de bolsa, um banco que patrocinou jantares e eventos para juízes e ministros — e pronto, a fraude ganha traje de gala. Enquanto isso, os guardiões da confiança financeira parecem preferir discursos elegantes a investigações incisivas; afinal, por que desconfiar de quem aparece nas fotos certas?

Caso Madoff

Fato essencial: esquema Ponzi de US$ 65 bilhões sustentado por décadas. Pontos-chave: Madoff explorou prestígio pessoal e redes de elite para atrair grandes investidores; retornos consistentemente elevados e economicamente improváveis foram aceitos sem verificação adequada; a SEC falhou em transformar sinais de alerta em ação preventiva, demonstrando uma fiscalização reativa e vulnerável à aparência de legitimidade.

SEC (U. S. Securities and Exchange Commission) é um agência norteamericana independente cuja função é proteger e regular o mercado de capitais dos EUA. Além disso, ela monitora as atividades das empresas para verificar se elas estão atuando de forma justa. (https://exame.com/invest/guia/...). Corresponde a nossa CVM.

Caso Banco Master

Fato essencial: Operação Compliance Zero (novembro de 2025) apurou emissão de títulos falsos e carteiras inexistentes, com movimentação estimada em R$ 12 bilhões; prisão preventiva do presidente Daniel Vorcaro, que durou muito pouco; liquidação extrajudicial pelo Banco Central.

Pontos-chave: investigação revelou ativos fictícios e apreensões de bens; exposição de outras instituições e risco sistêmico; indícios de contratos e patrocínios que ampliaram a aparência de legitimidade e retardaram a ação regulatória.

Comparação SEC versus CVM

Semelhança central: ambos os sistemas possuem normas e poderes técnicos, mas demonstraram incapacidade de detectar e interromper fraudes estruturais antes do colapso.

Diferenças relevantes: no caso Madoff, a blindagem veio da reputação pessoal e da confiança institucional; no caso Master, somaram-se lacunas regulatórias, omissões e a necessidade de atuação criminal coordenada (Polícia Federal e Banco Central) para desarticular o esquema. Em ambos os cenários, a mera existência de órgãos reguladores não garantiu detecção rápida, nem prevenção eficaz.

Moving the Goalposts e redes de influência

Mecanismo: Literalmente, “mudança das traves”, do alvo para dificultar o gol; em estratégia é o deslocamento do debate para tecnicismos jurídicos e contábeis que diluem a percepção pública da gravidade e retardam responsabilizações.

Efeito prático: contratos com escritórios ligados a figuras públicas, patrocínios de eventos para magistrados e networking político criaram camadas de proteção simbólica que dificultaram investigações e ampliaram o dano sistêmico.

Conclusão

Reputação como blindagem: cargos, patrocínios e aparições públicas funcionaram como escudo, retardando a suspeita e a ação regulatória.

Fiscalização reativa: estruturas de supervisão mostraram dependência de gatilhos externos e dificuldade em conectar sinais técnicos e econômicos que denunciavam incoerências.

Ruído institucional e midiático: tecnicismos e disputas formais foram usados para deslocar o foco do cerne material da fraude, atrasando responsabilizações.

Rede de influência: laços políticos e contratuais criaram obstáculos investigativos e ampliaram o risco sistêmico. Contratação de influencers para denegrir o trabalho do Banco Central, alegando suposta precipitação na liquidação do Banco Master. Fatos estes, em apuração pela PF.

Fraudes milionárias que corroem a confiança pública não são meros deslizes contábeis: são crimes contra a ordem econômica. A punição exemplar dos responsáveis, com mecanismos eficazes de investigação e aplicação penal, é essencial não apenas para reparar prejuízos individuais, mas para restaurar a credibilidade institucional e reforçar a integridade do sistema financeiro global e nacional. Nesta toada vejase, a lição do Prof. da Universidade de Duke, Edward J. Balleisen:

“Onde a confiança financeira é violada, deve-se aplicar uma punição exemplar para salvaguardar a ordem econômica e restaurar a fé nos mercados".

Referências bibliograficas

Agência Brasil. Fraudes no Master podem chegar a R$ 12 bilhões, estima diretor da PF. 18 nov. 2025.

Agência Brasil. Brazilian Federal Police arrest owner of Banco Master as Central Bank orders its liquidation. 18 nov. 2025.

BALLEISEN, Edward J. Fraud: An American History from Barnum to Madoff. Princeton: Princeton University Press, 2017.

MADOFF, BERNIE Case Studies and SEC audits (relatórios oficiais).

Reuters. Brazil central bank shuts Banco Master as police detain top investor. 18 nov. 2025.

SBT News. Banco Master: suspeita de fraude gira em torno de R$ 12 bilhões, diz Polícia Federal. 18 nov. 2025.

Jorge Luiz Bezerra

Jorge Luiz Bezerra

Sobre

É professor universitário, advogado, Mestre em Direito pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), delegado de Polícia Federal aposentado, especialista em Política Criminal, Segurança Pública e Privada, além de autor de diversos livros e artigos

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