Woke e Violência: quando a sensibilidade vira cumplicidade
Resumo
Este artigo examina a relação entre a agenda Woke e o enfraquecimento das políticas de segurança pública em países ocidentais, com ênfase no caso
brasileiro. Argumenta-se que a pressão cultural e política promovida pelo movimento Woke — expressa no combate ao encarceramento, na relativização da autoridade policial e na desconstrução dos valores tradicionais de ordem e mérito — contribuiu para o afrouxamento das respostas institucionais à criminalidade. A partir de autores favoráveis e críticos ao movimento, bem como de evidências empíricas recentes, conclui-se que a inversão de prioridades promovida por essa agenda produziu consequências concretas e mensuráveis sobre a segurança cotidiana de cidadãos comuns.
Palavras-chave: Agenda Woke. Segurança pública. Políticas penais.
Conservadorismo. Violência urbana.
Abstract
This article examines the relationship between the Woke agenda and the weakening of public security policies in Western countries, with emphasis on the Brazilian case. It argues that the cultural and political pressure promoted by the Woke movement — expressed in the fight against incarceration, the relativisation of police authority, and the deconstruction of traditional values of order and merit — contributed to the loosening of institutional responses to crime. Drawing on authors both favourable and critical of the movement, as well as recent empirical evidence, it concludes that the inversion of priorities promoted by this agenda produced concrete and measurable consequences for the everyday security of ordinary
citizens.
Keywords: Woke Agenda. Public security. Criminal policies. Conservatism. Urban violence.
1. Introdução: quando proteger o bandido virou virtude
Há algo de extraordinariamente revelador no fato de que Larry Fink, CEO da Black Rock — a maior gestora de ativos do mundo, com mais de dez trilhões de dólares sob administração —, tenha admitido publicamente, em 2024, que apoiar a agenda Woke foi um erro estratégico e moral. Não foi um blogueiro anônimo, não foi um pastor evangélico do interior do Brasil, não foi um general aposentado. Foi o homem que, por anos, usou o peso financeiro da BlackRock para pressionar corporações globais a adotarem as pautas de diversidade, equidade e inclusão que hoje se reconhece terem produzido, em larga escala, mais d visão do que coesão, mais ressentimento do que justiça.
A ironia é quase literária. O mesmo movimento que se apresentou como a vanguarda da compaixão humana produziu, nas cidades onde mais influenciou as políticas públicas — Seattle, Portland, São Francisco, Minneapolis — algumas das maiores altas de criminalidade registradas em décadas. Nas ruas brasileiras, o eco não tardou: governos estaduais e federal, impregnados pela retórica do "encarceramento em massa", da "polícia racista" e da "guerra às drogas fracassada", passaram a tratar a contenção da violência como problema secundário diante da urgência de não "reproduzir opressões estruturais".
O resultado está nas estatísticas — e nas calçadas.
2. O que é, afinal, a agenda Woke — e o que ela tem a ver com violência?
O termo Woke, originalmente vinculado ao movimento afro-americano de consciência sobre racismo sistêmico, foi progressivamente ampliado para abarcar um conjunto de posições políticas e culturais que incluem: a desconstrução das instituições tradicionais de ordem (família, religião, forças de segurança), a substituição do princípio da igualdade perante a lei pelo de equidade de resultados, o combate ao encarceramento como forma de "justiça reparatória" e a reinterpretação do crime como produto exclusivo de opressão estrutural — o que, em última análise, desloca a responsabilidade do indivíduo criminoso para a sociedade como um todo.
É nesse ponto que a agenda Woke encontra a segurança pública — e a fragiliza.
Quando o movimento Defund the Police (Desfinanciar a Polícia) ganhou as ruas americanas em 2020, após o assassinato de George Floyd, não se tratava apenas de um protesto legítimo contra brutalidade policial. Tratava-se, em seu núcleo ideológico, de uma proposta de desmantelamento do aparato de controle social do Estado, substituído, na teoria, por "serviços comunitários" e "saúde mental". Na prática, o que se viu em Minneapolis — cidade símbolo do movimento — foi um aumento de 46% nos homicídios entre 2019 e 2021 (FBI UNIFORM CRIME REPORT, 2022). Em Portland, os ataques a pessoas sem-teto aumentaram 43% no mesmo período, afetando, ironicamente, as próprias populações vulneráveis que o movimento dizia proteger.
3. Vozes favoráveis ao movimento: os argumentos que merecem ser conhecidos
A honestidade intelectual exige que se apresentem os argumentos dos defensores do movimento antes de criticá-los.
O sociólogo americano Robin DiAngelo, em White Fragility (2018), sustenta que as instituições ocidentais — incluindo as de segurança pública — foram
historicamente construídas sobre bases racistas, e que qualquer reforma genuína exige o reconhecimento dessas estruturas. Para DiAngelo (2018, p. 89, tradução nossa), "a neutralidade é uma ilusão; a inação diante da injustiça é, em si mesma, uma forma de cumplicidade". O argumento tem mérito parcial: é inegável que sistemas penais podem ser operados de forma seletiva e discriminatória. O problema está em transformar essa constatação numa justificativa para enfraquecer toda e qualquer resposta institucional ao crime.
O filósofo Ibram X. Kendi, em How to Be an Antiracist (2019), vai além e propõe que qualquer disparidade de resultados entre grupos raciais deve ser interpretada como evidência de racismo sistêmico — inclusive as estatísticas de encarceramento. Kendi (2019, p. 156, tradução livre) afirma que "uma política antirracista deve produzir equidade; se não produz, é, por definição, racista". Essa lógica, aplicada à segurança pública, leva à conclusão de que prender mais pessoas de determinado grupo — independentemente das provas e dos crimes cometidos — é, em si, um ato de opressão. É um raciocínio que inverte a presunção de inocência e torna o sistema penal um campo de batalha ideológico, não um instrumento de justiça.

4. As vozes críticas: quando a evidência confronta a narrativa
Do lado oposto, figuras intelectuais de peso oferecem uma demolição sistemática das premissas Woke aplicadas à segurança.
O filósofo e neurocientista americano Steven Pinker, em Rationalism (2021), demonstra que a criminalidade nos países ocidentais caiu drasticamente entre as décadas de 1990 e 2010 — precisamente o período em que políticas de tolerância zero, encarceramento seletivo e policiamento orientado por dados foram implementadas. Para Pinker (2021, p. 214, tradução livre), "a narrativa de que as instituições de segurança são inerentemente opressoras ignora as evidências de que elas protegem desproporcionalmente os mais vulneráveis — que são, em sua maioria, as próprias minorias que o movimento diz defender". O paradoxo é cruel: ao enfraquecer o policiamento nos bairros pobres em nome da "justiça racial", o movimento Woke entregou esses mesmos bairros ao domínio do crime organizado.
O criminólogo britânico Roger Scruton — um dos maiores pensadores conservadores do século XX —, em The Meaning of Conservatism (1980, reed.
2001), já antecipava o problema ao argumentar que a ordem pública não é um instrumento de opressão, mas a condição necessária para o florescimento da liberdade individual e comunitária. Scruton (2001, p. 67, tradução livre) escreve que "a destruição das instituições que sustentam a ordem civil, mesmo quando feita em nome da compaixão, produz não a liberdade, mas o caos — e no caos, os mais fracos sempre perdem primeiro". Essa frase, escrita décadas antes do movimento Defund the Police, descreve com precisão cirúrgica o que aconteceu em Minneapolis, Portland e, em escala menor, mas crescente, nas periferias brasileiras.

5. O Brasil sob influência Woke: compaixão seletiva e violência real
No Brasil, a influência da agenda Woke sobre as políticas de segurança pública assumiu contornos próprios, amalgamados com uma tradição nacional de garantismo penal radical e com a retórica da "necropolítica" — conceito do filósofo camaronês Achille Mbembe, amplamente adotado por setores acadêmicos e governamentais para caracterizar qualquer ação policial letal como manifestação de um "Estado assassino".
O resultado prático dessa concepção é visível. Entre 2019 e 2023, governos estaduais, como o Rio de Janeiro, Bahia, Ceará — nos quais, a mídia e a
intelectualidade seguem uma orientação essencialmente progressista — enfrentaram pressão constante para reduzir o número de mortes em operações
policiais, o que, em si, é um objetivo legítimo. O problema é que essa pressão não veio acompanhada de estratégias alternativas eficazes de contenção do crime organizado. Veio, em grande medida, como uma capitulação retórica diante da narrativa de que "a polícia mata mais do que o crime" — uma inversão que ignora solenemente os 47.508 homicídios registrados no Brasil em 2022 (FBSP, 2023), a esmagadora maioria deles cometidos por criminosos, não por agentes do Estado.
O pensador conservador brasileiro Olavo de Carvalho, em O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota (2013), identificou com antecedência o mecanismo ideológico em operação: a substituição sistemática da análise da realidade pela análise das "narrativas de poder", processo pelo qual os fatos perdem relevância diante da interpretação politicamente conveniente. Carvalho (2013, p. 178) escreve que "quando uma sociedade aceita que a culpa do criminoso seja sempre transferida para a estrutura social, ela não apenas absolve o culpado — ela condena a si mesma à impotência". É uma frase que captura com precisão o núcleo do problema: a agenda Woke, ao transformar o criminoso em vítima permanente do sistema, retirou das instituições a legitimidade moral de agir com firmeza — e retirou dos cidadãos comuns a proteção que lhes é devida.
6. Conclusão: a conta chega — e quem paga são os mais fracos
Larry Fink não recuou da agenda Woke por capricho ou pressão política. Recuou porque os números não mentem: as cidades, empresas e governos que mais adotaram essa agenda colheram, em muitos casos, os piores resultados — em criminalidade, em coesão social, em produtividade institucional. O mercado, como sempre, acabou dizendo o que a academia se recusava a admitir.
A lição para o Brasil é direta e urgente. Um país com mais de 47 mil homicídios anuais não pode se dar ao luxo de tratar a segurança pública como campo de experimentação ideológica. Não pode substituir o policiamento eficaz por "rodas de conversa", a prisão do traficante por "políticas de redução de danos" sem contrapartida de controle territorial, ou a autoridade do Estado pela romantização da "resistência comunitária".
A ordem não é o oposto da justiça. Ela é seu pressuposto. Como escreveu Roger Scruton, numa frase que deveria ser gravada na entrada de todo Ministério da Justiça do mundo ocidental:
"A primeira obrigação de qualquer governo civilizado não é redistribuir riqueza, não é garantir representatividade, não é promover identidades. É proteger o cidadão comum da violência do seu semelhante. Todo o resto é secundário — e se construído sobre a desordem, é ilusório." (SCRUTON, 2001, p. 71, tradução livre).
Quando a sensibilidade se torna cumplicidade, quando a compaixão é seletiva a ponto de só enxergar a dor do agressor e ignorar a da vítima, quando a virtude de denunciar o sistema vale mais do que o trabalho ingrato de proteger as pessoas — é a civilização inteira que perde. E os primeiros a perder, como sempre, são os mais pobres, os mais vulneráveis, os que não têm muros altos nem seguranças particulares.
São eles que pagam a conta do Woke. E é por eles que vale a pena, com toda a energia e toda a lucidez disponíveis, resistir.
Referências bibliográficas
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013.
DIANGELO, Robin. White Fragility: Why It's So Hard for White People to Talk About Racism. Boston: Beacon Press, 2018.
FBI — FEDERAL BUREAU OF INVESTIGATION. Uniform Crime Report 2022. Washington: U.S. Department of Justice, 2022.
FBSP — FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023.
FINK, Larry. Declaração pública sobre o recuo da BlackRock em relação à agenda ESG/Woke. Wall Street Journal, Nova York, fev. 2024.
KENDI, Ibram X. How to Be an Antiracist. New York: One World, 2019.
PINKER, Steven. Rationality: What It Is, Why It Seems Scarce, Why It Matters. New York: Viking, 2021.
SCRUTON, Roger. The Meaning of Conservatism. 3. ed. Basingstoke: Palgrave, 2001.