Pressão, silêncio e nervos pulsantes: Angústia
Um dos gênios da literatura, prefeito exemplar, em Palmeira dos Índios, sua terra natal, Graciliano Ramos sentiu, em 1936, que verdade, respeito e idealismo não sobrevivem ao sistema político. Há 90 anos, Mestre Graça escreveu o livro Angústia, que mostrava uma das radiografias mais duras do Brasil, já um país sufocado pela desigualdade, pelo poder oligárquico, pela humilhação cotidiana e pela solidão moral dos que enxergam demais.
O romance marca uma virada na escrita de Graciliano. Se antes predominava um olhar mais seco sobre o ambiente social, em Angústia o autor mergulha na mente fragmentada de Luís da Silva, personagem esmagado pela pobreza, pelo ressentimento e pela sensação permanente de impotência diante dos donos do poder.
Cá estamos nós, 90 anos depois, com a polarização nacional do Lulismo versus o Bolsonarismo. Alagoas segue com o mais do mesmo. A luta de Lenilda Luna, da Unidade Popular, e a indicação do professor Henrique Costa (PL) sequer são respeitadas em pesquisas eleitorais. A dupla representa a bandeira de luta das mulheres e classes, e do conservadorismo. Na política alagoana, são apenas detalhes secundários.
A experiência pessoal de Graciliano ajuda a explicar a força do livro. Preso durante o governo Vargas sem acusação formal, abandonado politicamente em Alagoas e sem apoio significativo sequer de setores próximos, o escritor carregou para a literatura a desilusão com as elites locais e nacionais. O homem que havia sido um prefeito exemplar em Palmeira dos Índios - conhecido pela honestidade administrativa e pelos relatórios inovadores - percebeu que competência e ética pouco significavam diante das estruturas de conluio e perseguição política.
Noventa anos depois, muitas das angústias de Graciliano continuam atuais. O Brasil ainda convive com o peso das alianças de conveniência, da política personalista, da exclusão social e da sensação de abandono institucional. O sentimento de Luís da Silva - o de alguém cercado por privilégios inalcançáveis e por relações de poder impermeáveis - ainda ecoa em cidades pequenas e grandes centros. A permanência dessa atualidade talvez explique por que Angústia segue tão moderno: não é apenas um romance psicológico, mas uma denúncia permanente de um país onde, muitas vezes, o mérito continua perdendo espaço para a influência, e a dignidade ainda luta para sobreviver em meio ao medo e ao silêncio.
Neste momento, senhoras e senhores, Alagoas vive com uma interrogação cravada no peito dos seus principais nomes ao Governo do Estado e ao Senado Federal. A esta altura eles não sabem, sequer, quem são seus vices e suplentes. Na Câmara Federal e Assembleia Legislativa quase tudo igual. Pressão, silêncio e nervos pulsantes com eles.
Angústia é o sentimento - coletivo - do momento.