Wadson Regis

Pressão, silêncio e nervos pulsantes: Angústia

Alfredo Gaspar, Arthur Lira, JHC, Renan Calheiros e Renan Filho estão no banco da angústia. Dois deles serão condenados pelas urnas (Angústia)

Um dos gênios da literatura, prefeito exemplar, em Palmeira dos Índios, sua terra natal, Graciliano Ramos sentiu, em 1936, que verdade, respeito e idealismo não sobrevivem ao sistema político. Há 90 anos, Mestre Graça escreveu o livro Angústia, que mostrava uma das radiografias mais duras do Brasil, já um país sufocado pela desigualdade, pelo poder oligárquico, pela humilhação cotidiana e pela solidão moral dos que enxergam demais.

O romance marca uma virada na escrita de Graciliano. Se antes predominava um olhar mais seco sobre o ambiente social, em Angústia o autor mergulha na mente fragmentada de Luís da Silva, personagem esmagado pela pobreza, pelo ressentimento e pela sensação permanente de impotência diante dos donos do poder.

Cá estamos nós, 90 anos depois, com a polarização nacional do Lulismo versus o Bolsonarismo. Alagoas segue com o mais do mesmo. A luta de Lenilda Luna, da Unidade Popular, e a indicação do professor Henrique Costa (PL) sequer são respeitadas em pesquisas eleitorais. A dupla representa a bandeira de luta das mulheres e classes, e do conservadorismo. Na política alagoana, são apenas detalhes secundários.

A experiência pessoal de Graciliano ajuda a explicar a força do livro. Preso durante o governo Vargas sem acusação formal, abandonado politicamente em Alagoas e sem apoio significativo sequer de setores próximos, o escritor carregou para a literatura a desilusão com as elites locais e nacionais. O homem que havia sido um prefeito exemplar em Palmeira dos Índios - conhecido pela honestidade administrativa e pelos relatórios inovadores - percebeu que competência e ética pouco significavam diante das estruturas de conluio e perseguição política.

Noventa anos depois, muitas das angústias de Graciliano continuam atuais. O Brasil ainda convive com o peso das alianças de conveniência, da política personalista, da exclusão social e da sensação de abandono institucional. O sentimento de Luís da Silva - o de alguém cercado por privilégios inalcançáveis e por relações de poder impermeáveis - ainda ecoa em cidades pequenas e grandes centros. A permanência dessa atualidade talvez explique por que Angústia segue tão moderno: não é apenas um romance psicológico, mas uma denúncia permanente de um país onde, muitas vezes, o mérito continua perdendo espaço para a influência, e a dignidade ainda luta para sobreviver em meio ao medo e ao silêncio.

Neste momento, senhoras e senhores, Alagoas vive com uma interrogação cravada no peito dos seus principais nomes ao Governo do Estado e ao Senado Federal. A esta altura eles não sabem, sequer, quem são seus vices e suplentes. Na Câmara Federal e Assembleia Legislativa quase tudo igual. Pressão, silêncio e nervos pulsantes com eles.

Angústia é o sentimento - coletivo - do momento.

Wadson Regis

Wadson Regis

Sobre

Jornalista profissional, formado pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), é editor-geral do AL1.

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