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Socioemocional e desempenho escolar: uma agenda estratégica para melhorar resultados de aprendizagem

Suely Menezes, Pedagoga | Arquivo pessoal

*Por Suely Menezes

Vivemos uma época em que educar se tornou tarefa ainda mais complexa. Mudanças no mundo do trabalho, aceleração tecnológica e inteligência artificial transformam a forma como aprendemos, convivemos e construímos projetos de vida. As demandas da sociedade contemporânea exigem que a escola vá além da transmissão de conteúdos e forme crianças e jovens capazes de pensar criticamente, colaborar, perseverar, lidar com frustrações e aprender continuamente.

Por isso, as habilidades socioemocionais - empatia, resiliência, autorregulação, cooperação, escuta ativa e responsabilidade - são competências indispensáveis para o século XXI. Elas não substituem Língua Portuguesa, Matemática ou Ciências. Ao contrário: criam melhores condições para que a aprendizagem acadêmica aconteça.

Maceió vive um momento importante. A rede municipal avançou no IDEB dos anos iniciais em 2023, passando de 4,8 para 5,3, com melhora também em Língua Portuguesa e Matemática. O resultado revela esforço de gestão, mobilização pedagógica e compromisso dos profissionais da educação. Mas também aponta para o próximo desafio: sustentar esses ganhos, garantir alfabetização na idade certa, recompor aprendizagens e levar os avanços aos anos finais do ensino fundamental.

Os anos finais costumam concentrar parte das maiores dificuldades das redes públicas brasileiras. É quando se ampliam as lacunas de aprendizagem, aumenta a complexidade curricular e muitos estudantes começam a se distanciar da escola. Não se trata apenas de dificuldade cognitiva. Há também questões de pertencimento, autoestima, motivação, convivência e projeto de vida. Melhorar a aprendizagem exige olhar para o estudante de
forma integral.

A Constituição Federal define a educação como caminho para o pleno desenvolvimento da pessoa, o preparo para a cidadania e a qualificação para o trabalho. A BNCC materializa essa compreensão ao incorporar competências cognitivas, socioemocionais, atitudes e valores entre as aprendizagens essenciais. Trabalhar o socioemocional, portanto, não é uma escolha periférica. É uma exigência legal, curricular e pedagógica.

Com a aprovação do novo Plano Nacional de Educação (PNE), essa agenda entra em uma nova etapa de implementação. Agora, estados e municípios terão o desafio de revisar seus Planos de Educação para alinhar as prioridades locais às novas diretrizes nacionais. Esse é um momento em que os Fóruns e os Conselhos Municipais e Estaduais de Educação se tornam ainda mais importantes como espaços de diálogo e construção coletiva das políticas educacionais. É também uma oportunidade para que o desenvolvimento socioemocional passe a integrar, de forma estruturada, as estratégias voltadas à aprendizagem, à equidade e ao desenvolvimento integral dos estudantes.

É uma estratégia com impacto direto na aprendizagem. Estudantes que aprendem a persistir diante de uma dificuldade, organizar a rotina de estudos, trabalhar em grupo, lidar com a ansiedade antes de uma avaliação e acreditar em sua capacidade de aprender têm mais chances de avançar academicamente. A aprendizagem não ocorre em um vazio emocional. Ela depende de vínculo, engajamento, confiança, foco e sentido.

Maceió já vem desenvolvendo iniciativas que dialogam com essa agenda e tem, na revisão de seu Plano Municipal de Educação, a chance de transformar essas ações em uma política pública estruturada. Programas de busca ativa, alfabetização, recomposição de aprendizagem, avaliações alinhadas à BNCC, ampliação do tempo integral e ações de mobilização para o Saeb mostram que a rede compreendeu a importância de combinar gestão, acompanhamento e prática pedagógica. O próximo passo é transformar esse conjunto de iniciativas em uma política estruturada de desenvolvimento socioemocional integrada ao currículo.

Para isso, algumas frentes são importantes: formação docente contínua; ferramentas didáticas que favoreçam cooperação, raciocínio, criatividade, leitura, argumentação e resolução de problemas; avaliação diagnóstica, capaz de indicar lacunas acadêmicas e fatores de engajamento, frequência e autorregulação; e integração curricular, para que o socioemocional não seja disciplina isolada, mas dimensão presente na rotina escolar. 

Também é essencial cuidar dos professores. Não haverá desenvolvimento socioemocional dos estudantes se os educadores não forem apoiados em seu desenvolvimento profissional e humano. Formação, escuta, planejamento e valorização docente são inseparáveis dessa agenda.

A boa notícia é que Maceió já demonstrou capacidade de mobilização. O avanço nos anos iniciais, as ações de alfabetização, a preparação para avaliações externas e o engajamento das escolas indicam que há uma base sobre a qual construir. Agora, a cidade precisa dar um passo mais sistêmico: fazer das habilidades socioemocionais uma política pública de aprendizagem.

As habilidades socioemocionais não são um luxo. São parte de uma educação comprometida com equidade, aprendizagem e desenvolvimento humano. Para Maceió, incorporá-las de forma planejada e mensurável (e refletir esse compromisso na revisão do Plano Municipal de Educação, construída de forma participativa com o apoio dos fóruns e conselhos de educação) pode transformar avanços recentes em resultados sustentáveis.

*Suely Menezes é Pedagoga com habilitação em Administração Escolar e Orientação Educacional pela Universidade Federal do Pará, Mestra em Desenvolvimento Regional pela Universidade de Taubaté. Atuou como Conselheira Nacional de Educação e foi Presidente da Câmara de Educação Básica do CNE até agosto de 2024