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Crônica: Ao aguar as plantas de minha mãe

Rodrigo Alves de Carvalho | Divulgação

Por Rodrigo Alves de Carvalho

— Precisa aguar as plantas. Faz quase cinco dias que você aguou da última vez!
Minha mãe sabia que eu sabia que tinha que jogar um pouco de água em seus vasos de flores e folhagens, que ficavam no quintal e debaixo de um ranchinho nos fundos de casa.
— Se não for aguar, eu mesmo águo!
Eu não queria que ela se dispusesse a fazer isso, porque ultimamente estava tendo um pouco de tontura causada por uma labirintite que ainda estava em tratamento, ainda mais, em se tratando de uma senhora de 84 anos.
— Já vou aguar, mãe!
No íntimo, nunca tive muita afeição por plantas ou flores. Mas, desde que me foi incumbido a tarefa de jogar um pouco de água naqueles vasos de orquídeas, sinos de natal, violetas, samambaias, suculentas e um pé enorme de comigo-ninguém-pode, passei a valorizar a beleza do florescimento das flores e o verde vivo das folhagens.
Naquele dia, estava muito atarefado com pesquisas para minhas matérias jornalísticas e buscando inspiração para uma crônica, que precisava enviar para alguns jornais em que eu sou colaborador.
— As coitadas vão secar tudo! – Dizia minha mãe.
Um pouco enfezado, fui até o quintal e apanhei o regador, enchi de água e comecei a jogar sobre as plantas. Minha mãe chegou para acompanhar e conversar.
— Tive um sonho engraçado essa noite. Sonhei com seu avô, em nossa casa antiga, quando eu era menina...
E ela contou todo o seu sonho, onde em alguns momentos, eu intervinha com alguma piadinha pontual.
Ríamos.
Depois, ela falou sobre flores que já teve e eram lindas. Sobre meu avô também gostar de plantas e até cultivar um jardim e um pomar na antiga casa da família.
Muita coisa da conversa, eram novidades.
Ríamos.
Depois de alguns minutos aguando as plantas e quase duas horas conversando sobre coisas da família e do passado, voltei ao trabalho e à essa crônica (que foi escrita).
Ao amanhecer no outro dia, chovia.
Minha mãe achou graça:
— Se soubesse que iria chover, você não precisaria ter aguado as plantas ontem.
Sorri e disse:
— Não tem problema, mãe. Valeu a pena.

RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.

Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” - coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” - série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.