Estudante da Ufal resgata a trajetória de Maria Carrascosa em TCC
Juliana Gomes
Uma inquietação motivou a pesquisa da estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Alagoas (Ufal): “Quantas histórias importantes se perdem quando ninguém as registra?” Foi a partir desse questionamento que nasceu o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) da estudante Maria Villanova. Dedicado a resgatar a trajetória de Maria José Carrascosa, educadora, pesquisadora e uma das maiores responsáveis pela valorização e difusão do Pastoril alagoano.
A pesquisa teve início após a participação da estudante no projeto “Os Encantos da Caatinga”, em 2024, cujos personagens são inspirados em personalidades da cultura de Alagoas. Durante a produção do material de divulgação, Maria percebeu a dificuldade em encontrar informações sobre Carrascosa, que serviu de inspiração para a personagem Cacá.
"Praticamente não havia informações sobre ela. Sabíamos apenas que era uma mestra apaixonada pelo Pastoril e sequer existiam fotografias disponíveis na internet. Depois de quase duas semanas de busca, conseguimos localizar uma imagem em um folheto produzido pela museóloga Cármen Lúcia Dantas, durante uma homenagem realizada pela Ufal", relembra.
Segundo a estudante, além de imagens, poucas informações foram encontradas, entre elas o relato de que Carrascosa coordenava os ensaios do Grupo de Tradições Folclóricas Professor Théo Brandão (GTFPTB), da Ufal, onde iniciou sua trajetória no final da década de 70 e permaneceu até meados da década de 90.Segundo relatos, a professora Carrascosa continuava a ensaiar com o grupo mesmo já com deficiência visual, identificando erros apenas pela audição. A história despertou o interesse da estudante, que decidiu transformar a curiosidade em objeto de pesquisa.
Orientada pela professora do curso de Jornalismo da Ufal, professora Janayna Ávila, a estudante optou por desenvolver uma reportagem voltada ao Jornalismo Cultural, buscando compreender por que uma personalidade tão importante para a cultura popular alagoana hoje encontra-se tão pouco divulgada e conhecida.
A mulher que levou o Pastoril de Alagoas para além das fronteiras
Durante a pesquisa, foi possível reunir evidências da importância histórica de Carrascosa para a cultura popular do estado. Segundo Maria Villanova, ainda na década de 1950, ela foi pioneira ao levar o Pastoril alagoano para apresentações fora de Alagoas, atendendo ao convite do radialista Haroldo Miranda para apresentações em emissoras de rádio de Recife e, posteriormente, de Fortaleza. Também foi uma das precursoras das Jornadas Soltas no Pastoril e dedicou grande parte de sua vida à valorização dos folguedos populares.
À frente do Grupo de Tradições Folclóricas Professor Théo Brandão, da Ufal, ela coordenou apresentações em diversas regiões do Brasil e em países como Espanha e Peru, levando o nome da Universidade e da cultura alagoana para além das fronteiras nacionais."Ela colocou Alagoas no mapa por meio da cultura popular. Divulgou nossos folguedos e mostrou sua importância para o Brasil e para o mundo", destaca a pesquisadora.
Meses de investigação para reconstruir uma história
A escassez de documentos foi um dos principais desafios enfrentados durante a elaboração do trabalho. Sem encontrar registros suficientes em museus e arquivos públicos, a estudante realizou uma extensa pesquisa bibliográfica, consultando obras de autores como Théo Brandão, Mário de Andrade, Cícero Péricles e José Maria Tenório, além de recorrer a pesquisas históricas, entrevistas e levantamento imagético.
Entre os entrevistados estiveram a museóloga Cármen Lúcia Dantas, o antropólogo e professor Zézito de Araújo, a professora Margarida Santos, ex-coordenadora da Pró-reitoria de Extensão (Proex) da Ufal, o dramaturgo Homero Cavalcante, além de ex-alunos que conviveram com Carrascosa. Apesar disso, as informações disponíveis concentravam-se principalmente a partir da década de 1970.
A pesquisa permaneceu interrompida por cerca de quatro meses até que, por intermédio de sua tia-avó, Ivânia Barbosa Brêda, a estudante conseguiu o contato de Alice Jurquet, filha/sobrinha de Maria José Carrascosa.
A entrevista representou um marco para a conclusão do TCC
"A Alice me forneceu um documento elaborado pela própria Carrascosa, com informações desde seu nascimento até a década de 1990. A partir dele consegui compreender melhor sua trajetória, sua atuação na educação e seus pioneirismos. Também pude, ao entrevistá-la, compreender mais sobre aquela mulher tão especial”, explica.
Outra preocupação da pesquisadora foi garantir a confiabilidade das informações. Como boa parte do material era baseada em relatos orais, foi necessário cruzar depoimentos, comparar documentos e confrontar diferentes fontes para assegurar o rigor da apuração.
O apoio do Acervo Imagético da Ufal
O Acervo Imagético da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) também teve papel importante no desenvolvimento da pesquisa. Por meio dele, foi possível localizar fotografias da homenagem prestada a Maria José Carrascosa, registros das apresentações do Grupo de Tradições Folclóricas Professor Théo Brandão e imagens dos espaços utilizados pela Universidade.
O trabalho contou ainda com a colaboração de Izaildo Silva, ex-aluno e um dos principais colaboradores de Carrascosa, que auxiliou na identificação das fotografias e na contextualização dos registros históricos.
Uma história preservada pelo jornalismo
Entre os moentos que mais marcaram a pesquisadora está o relato utilizado na abertura da reportagem, baseado na memória da museóloga Cármen Lúcia Dantas. Mesmo já sem enxergar, Maria José Carrascosa conduzia os ensaios do Pastoril identificando, apenas pelo som dos passos e do canto das pastorinhas, quem havia errado a coreografia.

Para a estudante, esse episódio simboliza a paixão e dedicação da educadora à preservação da cultura popular, em especial ao Pastoril. Ao longo da pesquisa, também foi possível compreender a metodologia implantada por Carrascosa no Grupo de Tradições Folclóricas Professor Théo Brandão. Mais do que ensinar coreografias, ela exigia que os integrantes estudassem profundamente os folguedos, conhecessem sua história, seus significados, respeitassem as tradições e buscassem precisão na execução das apresentações.
Esse trabalho contribuiu para transformar o grupo da Ufal em referência estadual, regional, nacional e internacional na preservação das manifestações culturais populares. Para a autora, registrar a trajetória de Maria José Carrascosa representa também preservar a memória coletiva de Alagoas.
"O trabalho surgiu de uma inquietação: quantas histórias a gente vem perdendo porque ninguém contou? Resgatar a trajetória de Maria José Carrascosa é manter viva uma parte importante da identidade de Alagoas, em especial dos folguedos e manifestações populares.. No fim, é sobre usar o Jornalismo para preservar histórias que ajudam a entender quem somos e de onde viemos", concluiu.