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Pesquisas da Ufal ajudam a compreender e enfrentar a violência contra a mulher

Manuella Soares

Entender por que a violência contra a mulher persiste, identificar suas diferentes formas de manifestação e buscar caminhos para enfrentá-la são desafios que mobilizam pesquisadores de diversas áreas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Direito, Serviço Social, Ciências Sociais, Saúde e Computação estão entre os campos que vêm produzindo conhecimento sobre um problema que ultrapassa a esfera da segurança pública e envolve desigualdades sociais, econômicas, raciais e de gênero.

No Agosto Lilás, mês dedicado à conscientização e ao enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres, mostramos como a produção acadêmica e científica da Ufal revela diferentes perspectivas sobre o tema. São estudos que investigam desde o perfil das mulheres vítimas de violência em Alagoas e a efetividade das medidas protetivas até os impactos das agressões sobre a saúde, as razões que dificultam o rompimento de relacionamentos abusivos e o comportamento dos homens autores de violência.

“É perceptível o aumento paulatino da produção acadêmica sobre violência de gênero em diversos campos de pesquisa. Penso que essa é uma abertura importante da Academia para a realidade social de tantas formas de violência de gênero que atravessam as mulheres e que impactam a sociedade como um todo”, destaca a professora Elaine Pimentel.

Elaine ressalta que ainda existem muitas questões a serem investigadas, sobretudo diante da diversidade social, racial e de gênero da sociedade brasileira. Para a pesquisadora, compreender as diferentes expressões da violência e os fatores que permitem sua reprodução é fundamental para buscar mecanismos de políticas públicas capazes de enfrentar o problema.

Perguntas que a ciência ainda precisa responder

Apesar dos avanços no conhecimento e na legislação, os pesquisadores da área ressaltam que a violência de gênero continua apresentando novos desafios. Elaine Pimentel chama atenção para a necessidade de compreender por que essas práticas continuam a se reproduzir.

“Há sempre alguma perspectiva a ser melhor compreendida, revelada, analisada, com vistas a buscar caminhos de superação das violências de gênero, reais e simbólicas, que são terríveis expressões da desigualdade social e consistem em grave violações de direitos humanos das mulheres e da comunidade LGBTQIAPN+”, reforça.

A professora Elvira Barretto, líder do Grupo de pesquisa Gênero, Diversidade e Direitos Humanos (Diverge/CNPq), aponta questões contemporâneas que também precisam entrar na agenda científica. Para ela, uma das perguntas colocadas atualmente é: Como enfrentar a avalanche da misoginia, do incentivo à masculinidade tóxica – machosfera, e da doutrinação de meninos para aceitarem a dominação das mulheres como algo natural, especialmente por meio das mídias digitais?.

A pesquisadora também defende uma mobilização mais ampla da sociedade, unindo forças entre “homens, mulheres, escolas, igrejas e mídias, em um movimento internacional contra a cultura do estupro”.

Conheça agora algumas das produções científicas que estão disponíveis no Repositório do Ufal.

Serviço Social: quem são as mulheres vítimas de violência em Alagoas

Entre as produções recentes está o trabalho Uma guerra contra as mulheres? Analisando a violência doméstica a partir do perfil das mulheres vítimas desta violência em Alagoas no ano de 2023, desenvolvido por Sallyanne de Carvalho Florêncio, sob orientação da professora Andréa Pacheco de Mesquita, na Faculdade de Serviço Social (FSSO).

A pesquisa utiliza dados do Mapa da Violência Contra a Mulher em Alagoas 2023 e do Anuário Brasileiro de Segurança Pública para construir um perfil das vítimas. Entre os 12.280 registros considerados pelo estudo, 69% eram de mulheres negras, somando pretas e pardas.

Leia o trabalho no link: Uma guerra contra as mulheres? Analisando a violência doméstica a partir do perfil das mulheres vítimas desta violência em Alagoas no ano de 2023

Medicina: violência doméstica também é questão de saúde

Os efeitos das agressões podem ultrapassar as lesões físicas. Na Faculdade de Medicina (Famed), a dissertação Relação entre violência doméstica e tentativa de suicídio entre as mulheres, de Gabriela Barbosa Azevedo, investigou a associação entre histórico de violência praticada pelo parceiro íntimo e comportamento suicida.

Apresentada ao Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas, a pesquisa reforça a necessidade de compreender a violência contra a mulher também como problema de saúde pública e considerar seus impactos sobre a saúde mental das vítimas.

Leia o trabalho: Relação entre violência doméstica e tentativa de suicídio entre as mulheres

Psicologia: por que é tão difícil romper um relacionamento abusivo?

Outra vertente da produção acadêmica da Universidade procura responder a uma pergunta que muitas vezes surge de maneira simplificada diante de casos de violência: por que uma mulher permanece com o agressor?

A pesquisa A intenção feminina de permanecer em um relacionamento abusivo considerou aspectos como dependência financeira e emocional, filhos, relações familiares e religião, demonstrando a complexidade envolvida no rompimento do ciclo da violência.

A área da psicologia na Ufal também produziu estudos sobre a retratação no contexto da Lei Maria da Penha, analisando a questão a partir de uma perspectiva psicossocial.

Leia os trabalhos:

A intenção feminina de permanecer em um relacionamento abusivo

Retratação na Lei Maria da Penha: um estudo psicossocial

Direito: medidas protetivas e Patrulha Maria da Penha

Na Faculdade de Direito de Alagoas, diferentes trabalhos analisam a aplicação da Lei Maria da Penha e os instrumentos criados para proteger mulheres em situação de risco.

O TCC Entre vulnerabilidades e riscos: uma análise das medidas protetivas no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres em Alagoas, de Maria Eduarda Santos do Nascimento, orientada por Elaine Pimentel, investigou a efetividade desses mecanismos considerando também a perspectiva da interseccionalidade.

A atuação da Patrulha Maria da Penha em Maceió também aparece de maneira recorrente na produção acadêmica da FDA, com estudos sobre fiscalização das medidas protetivas, acompanhamento das mulheres assistidas e efetividade dos mecanismos de proteção.

Leia alguns dos trabalhos:

Entre vulnerabilidades e riscos: uma análise das medidas protetivas no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres em Alagoas

Violência doméstica e familiar contra a mulher: a atuação da Patrulha Maria da Penha na fiscalização das medidas protetivas de urgência em Maceió

O papel dos órgãos de Segurança Pública na efetividade da Lei Maria da Penha

Patrulha Maria da Penha: análise sobre os impactos relativos ao acompanhamento das assistidas

Sociologia: o olhar também se volta para os autores da violência

Uma perspectiva diferente aparece no Programa de Pós-graduação em Sociologia. A dissertação Um estudo comparado sobre intervenções junto a homens autores de violência doméstica em estados do Nordeste, de Aline Daiane Silva, analisa iniciativas desenvolvidas em Alagoas, Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.

O estudo inclui a responsabilização e a intervenção junto aos homens autores de agressões como parte das estratégias necessárias para prevenir a reincidência e romper ciclos de violência.

Leia o trabalho: Um estudo comparado sobre intervenções junto a homens autores de violência doméstica em estados do Nordeste

Enfermagem: gestação, violência e mulheres quilombolas

A produção da Ufal permite observar como gênero, raça, território e condições de saúde podem se sobrepor. O estudo Repercussão da violência doméstica e familiar relacionada à gestação em mulheres quilombolas buscou compreender os efeitos da violência durante a gestação a partir das experiências de mulheres quilombolas.

O recorte contribui para dar visibilidade às especificidades vivenciadas por mulheres de comunidades tradicionais e evidencia a importância dos serviços de saúde como espaços de identificação e acolhimento.

Leia o trabalho: Repercussão da violência doméstica e familiar relacionada à gestação em mulheres quilombolas

Odontologia: reconhecer sinais que podem revelar agressões

Na Faculdade de Odontologia (Foufal), pesquisadores têm estudado a atuação dos profissionais de saúde diante da violência contra mulheres. O TCC Violência doméstica contra a mulher e a conduta do cirurgião-dentista, de Alexandre Magno da Fonseca Barboza e Lavínia Nobre Lins, analisa a atuação dos profissionais diante de casos suspeitos ou confirmados de agressão.

Como lesões na face e na região da boca podem estar relacionadas a episódios de violência, os estudos ressaltam a importância da preparação profissional para reconhecer sinais e realizar os encaminhamentos e notificações necessários.

Leia os trabalhos:

Violência doméstica contra a mulher e a conduta do cirurgião-dentista

Violência contra a mulher e a importância da notificação pelo cirurgião-dentista

Computação: tecnologia também pode ajudar a compreender a violência

A Ciência da Computação aparece entre as áreas que utilizam novas ferramentas para analisar manifestações da violência contra as mulheres. No Instituto de Computação da Ufal (IC), o trabalho Uma abordagem para extrair relatos de agressões contra mulheres no Twitter e enquadrar na Lei Maria da Penha, de Júlia Albuquerque Aguiar, desenvolveu uma abordagem computacional para localizar relatos de agressões publicados na rede social e classificá-los segundo os tipos de violência previstos na legislação.

Outro trabalho, Análise temporal e causal das chamadas ao Disque 180 e notícias do Ministério das Mulheres, utilizou séries temporais e modelos estatísticos para investigar possíveis relações entre a divulgação de informações sobre violência contra a mulher e as ligações realizadas para a Central de Atendimento à Mulher.


Leia os trabalhos:

Uma abordagem para extrair relatos de agressões contra mulheres no Twitter e enquadrar na Lei Maria da Penha

Análise temporal e causal das chamadas ao Disque 180 e notícias do Ministério das Mulheres

Grupo investiga raízes do feminicídio

A produção científica da Ufal sobre o tema também continua avançando. O grupo Diverge desenvolve atualmente a pesquisa Raízes do feminicídio: um estudo sobre masculinidade patriarcal, que investiga a relação entre socialização masculina, masculinidade patriarcal e violência letal contra mulheres.

“O grupo compreende a violência não como atos isolados, mas como parte de uma engrenagem do capitalismo patriarcal, em que a subjugação das mulheres é funcional ao sistema vigente”, destaca a coordenadora Elvira Barretto. Ela conta que o estudo empírico tem como foco homens encarcerados pela prática de feminicídio e busca compreender processos sociais e culturais relacionados à violência. Os resultados da pesquisa estão em construção, mas a atuação do grupo ultrapassa a pesquisa.

A equipe realiza atividades de ensino e extensão e desenvolve ações voltadas à formação crítica e ao diálogo com a sociedade. Entre elas estão ciclos de estudos e o projeto Inaê Mulher no Enfrentamento das Expressões da Violência, realizado no bairro Village Campestre e voltado a questões de raça, gênero e classe e à formação de lideranças femininas.

O grupo também integra a Rede Feminista Norte e Nordeste (Redor), espaço de articulação de pesquisas e debates acadêmico-científicos sobre temas que incluem violência de gênero e feminicídio.

Para conhecer mais sobre o Diverge, acesse divergeconverge.blogspot.com ou o Instagram @diverge.ufal. “O Diverge busca democratizar o conhecimento teórico-crítico e fomentar o diálogo com a sociedade civil sobre o fim da exploração e das opressões”, reforça Elvira sobre um trabalho que vai muito além do Agosto Lilás e, todos os meses, coloca ciência e amor na dedicação às vítimas de violência.