Empresas ampliam tomada de crédito mesmo com juros acima de 24% ao ano
Concessões para pessoas jurídicas chegam a R$301,3 bilhões em agosto e sobem 1,7% no mês, na contramão das famílias
As empresas brasileiras recorreram mais ao crédito em agosto, mesmo com juros ainda elevados. Dados divulgados pelo Banco Central no dia 29 mostram que as concessões de crédito livre para pessoas jurídicas somaram R$301,3 bilhões no mês, alta de 1,7% em relação a julho. No acumulado de 12 meses, o avanço é de 11,6%.
O movimento vai na direção oposta ao observado entre as famílias. As concessões para pessoas físicas caíram 2,1% no mesmo período, para R$346,6 bilhões, o que levou o total do crédito livre a recuar 0,4%.
O custo do dinheiro segue alto. A taxa média cobrada das empresas nas operações de crédito livre ficou em 24,2% ao ano em agosto, um ponto percentual abaixo dos 25,2% registrados em julho. O recuo alivia pouco a conta de quem precisa contratar novos recursos.
Para Douglas Bubna, empresário com 16 anos de experiência nas áreas comercial, de marketing e de desenvolvimento de negócios, mais importante do que o crescimento do crédito é entender para onde esse dinheiro está indo. Ele separa o empréstimo usado para financiar uma expansão capaz de gerar receita daquele contratado de forma recorrente para cobrir despesas da operação. “Com juros nesse patamar, essa conta precisa ser feita com muito cuidado, porque o custo financeiro pode comprometer justamente o caixa que a empresa está tentando preservar”, afirma.
O avanço não se limita às novas concessões. O crédito ampliado às empresas chegou a R$7,3 trilhões em agosto, o equivalente a 54,6% do Produto Interno Bruto (PIB), com alta de 8,7% em 12 meses. Já o saldo de capital de giro, modalidade usada para financiar o dia a dia das operações, cresceu 2,1% no mês.
Na avaliação de Bubna, vale assumir uma dívida para crescer quando o investimento rende mais do que custa. Quem contrata recursos caros para abrir uma unidade, comprar equipamento ou ampliar uma operação precisa saber quanto isso vai acrescentar de receita e em quanto tempo o investimento se paga. “Não basta enxergar potencial de crescimento. É preciso saber se o caixa consegue suportar a dívida até que esse crescimento efetivamente aconteça”, diz.
Ele defende que planos de expansão venham acompanhados de projeções de fluxo de caixa e de cenários que considerem vendas abaixo do esperado. “Se o investimento só funciona quando tudo dá certo, provavelmente existe um problema na estrutura da operação”, afirma. Antes de fechar o contrato, segundo ele, é preciso testar o que acontece se a receita atrasar três ou seis meses, se os custos subirem ou se a expansão demorar mais para amadurecer.
Bubna faz uma ressalva: juros altos não tornam ruim toda contratação de crédito. Empresas com operações estruturadas podem usar recursos de terceiros para preservar capital próprio, aproveitar oportunidades ou acelerar projetos com potencial de retorno. “A pergunta não deveria ser simplesmente se o crédito está caro. A pergunta é: o que a empresa vai fazer com esse dinheiro e quanto ele será capaz de gerar?”, conclui.
Fonte: Assessoria