Crônica: Brasil!... Brasil! (Enquanto estiver ganhando)
Por Rodrigo Alves de Carvalho
Dois amigos se encontram num boteco, onde combinaram com outros torcedores para assistirem ao jogo entre Brasil e Japão pela fase de 16 avos da Copa do Mundo.
— E aí Clodoaldo? Dessa vez está acreditando na vitória da seleção? Já que desde o começo do Mundial estava dizendo que o Brasil não passaria da fase de grupos?
— Confesso que no primeiro jogo contra o Marrocos, não estava botando fé. No segundo jogo contra o Haiti ainda estava descrente por ganhar de um time ruim, já contra a Escócia, passei a acreditar um pouco mais, já que ganhou bem aquele jogo, só que isso não basta...
Na verdade, Clodoaldo era daquele torcedor que só acreditava no time, quando ganhava, era assim com o seu Palmeiras, e era assim também em relação à seleção; quando o time perdia, seja por jogar mal ou superioridade do adversário, Clodoaldo xingava todo mundo, criticava o técnico, os diligentes, a torcida... enfim, era aquele típico torcedor “chato”.
Começa o jogo. Os nervos à flor da pele, a torcida vidrada no televisor instalado na parede do bar e Clodoaldo com a cara amarrada.
Aos 20 minutos do primeiro tempo, depois de passe errado de Danilo na direita, Kaishu Sano arranca com a bola por dentro, e chuta rasteiro de fora da área: “gol do Japão”.
Clodoaldo explode em palavrões:
— Timinho medíocre! Seleção de burros! Como é que entrega esse melão! Casemiro gordo só dá trombada! O Brasil vai tomar goleada do Japão!
Todos no bar de cabeça baixa. Mas a esperança ainda prevalecia. Talvez, menos para Clodoaldo.
Fim do primeiro tempo e o pessimista ainda desferia sua raiva.
— Não sei porque perco meu tempo torcendo por essa seleção de medíocres! Só pensam em dinheiro. Seleção boa foi a de setenta ou a de dois mil e dois... aquilo era futebol de verdade. Dava gosto torcer...
Começa o segundo tempo.
Aos 10 minutos, Gabriel Magalhães recebe passe rasteiro na entrada da grande área, faz ótimo cruzamento na segunda trave e Casemiro cabeceia forte para empatar o jogo.
O bar quase vem abaixo. Todos pulando e comemorando. Menos Clodoaldo.
— Não sei como o Casemiro com todo aquele peso conseguiu subir para cabecear... o Brasil empatou, mas não ganhou. Tem que jogar muito mais...
O jogo prossegue com emoção até o final. Clodoaldo já cravava um empate também na prorrogação e a eliminação do Brasil nos pênaltis, já que considerava o goleiro Alisson um “mão de alface”.
E de repente, já aos 50 minutos do segundo tempo, nos últimos segundos dos acréscimos, Bruno Guimarães dá um grande passe para Martinelli dentro da área, que bate com a perna direita e coloca a bola no fundo rede.
O Brasil vira o jogo, e vence a partida por 2 a 1.
Cadeiras para o ar, pulos, alegria, dança... a torcida grita: Brasil!... Brasil!... e entre os torcedores estava Clodoaldo, que também comemorava timidamente.
O amigo vendo sua alegria pergunta:
— Agora acredita que a seleção tem chance de ganhar essa Copa do Mundo, Clodoaldo?
— Ganhar do Japão era obrigação. Quero ver passar das oitavas de final!
Clodoaldo estava feliz, até sorria discretamente. Mas, só vai dizer que sempre acreditou e torceu pela seleção, se o Brasil for campeão. Caso contrário, sempre afirmará que os jogadores atuais só pensam em dinheiro, e que seleção boa foi a de setenta ou a de dois mil e dois... aquilo era futebol de verdade.
RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” - coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” - série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.