Crônica: No dia seguinte... a vida é como sempre foi
Por Rodrigo Alves de Carvalho
Afonso é daquelas pessoas que se entrega de corpo e alma quando defende e torce por algo ou alguém. Para ele, é uma questão de honra defender aquilo que pensa, mesmo que o que pense não seja tão certo.
Entretanto, por mais que torça, chegando a discutir com as pessoas, cortar relações e até mesmo entrar em confronto corporal para defender o “objeto” de sua torcida, Afonso tem que acordar no dia seguinte e viver sua vida como sempre foi.
Foi assim, por exemplo, quando torceu fervorosamente para o Botafogo ser campeão Brasileiro em 2024. Na fase final do campeonato, discutiu feio com alguns amigos, principalmente flamenguistas, e chegou a sair no tapa com um palmeirense que chamou o time da estrela solitária de “cavalo paraguaio”. Ao ser campeão, Afonso pulou muito, zoou muito os amigos dos times adversário, brigou mais um pouco, se acabou de tanta comemoração... no dia seguinte, teve que ir com seu Fiat Uno trabalhar, cumprir sua jornada de trabalho num escritório de contabilidade e receber um salário medíocre que mal dava para pagar suas contas.
Já, quando o Flamengo chegou à final da Liberadores contra o Palmeiras em 2025, Afonso não aceitava admitir de maneira alguma que seu rival estadual ganhasse mais um título. Além de brigar com o cunhado, chegando a expulsa-lo de casa “para nunca mais aparecer”, apostou seu Fiat Uno com o dono do botequim de seu bairro, pois acreditava piamente na vitória palmeirense... no dia seguinte, teve que ir de ônibus trabalhar, cumprir sua jornada de trabalho num escritório de contabilidade e receber um salário medíocre que mal dava para pagar suas contas.
Recentemente, as discussões e brigas chegaram no campo político. Afonso encarnou de tal maneira a defesa por um candidato, que nada nem ninguém conseguia mudar sua visão política e ideológica (mesmo sem ter ideia do que tal ideologia significava).
E mesmo que dissessem que o candidato em questão era envolvido com supostas ilegalidades, Afonso não mudava de ideia, e além de ofender quem discordava de suas posições, chamava o sujeito para o tapa. Discutiu com os vizinhos, com os irmãos e até chegou ao cúmulo de pedir o divórcio da esposa, caso ela não apoiasse o candidato de seu coração.
Na véspera da eleição, gastou suas últimas economias no boteco, para “ajudar” os amigos indecisos a votar no candidato dele. E para variar, saiu no tapa e apanhou feio de um brutamontes que iria anular o voto... no dia seguinte, teve que ir cheio de hematomas trabalhar, cumprir sua jornada de trabalho num escritório de contabilidade e receber um salário medíocre que mal dava para pagar suas contas.
RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” - coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” - série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.