Entre o rio e a fé: Igreja Nossa Senhora dos Prazeres preserva história secular no sertão alagoano
Nem todos os caminhos levam ao mar. Alguns conduzem ao rio. No caso do rio Ipanema, ele nasce em Pesqueira, em Pernambuco, e deságua no Rio São Francisco, banhando cidades do sertão alagoano como Santana do Ipanema. E em Belo Monte, mais precisamente no povoado Barra do Ipanema, a foz do rio encontra o Velho Chico, compondo um cenário de rara beleza e um ponto geográfico de relevância para o sertão alagoano.
Percorrer a região nesta época do ano, quando o calor beira os 40 graus e a seca se intensifica, é atravessar trechos onde a água desapareceu, revelando grandes pedras, faixas de areia e árvores ressequidas — um cenário que remete em parte às descrições de Graciliano Ramos em Vidas Secas. O acesso ao alto do morro, sob sol forte e vegetação árida, exige disposição. Um trecho do caminho é feito de barco; o restante, a pé.
É lá no alto do morro que o visitante encontra uma construção do século XVII que, ao longo de mais de 300 anos, atrai milhares de fiéis: a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. O templo encantou ninguém menos que Dom Pedro II, durante a visita do imperador a Alagoas, em outubro de 1859, no contexto da extensa viagem que realizou pelas províncias do Norte — atual Nordeste — do Brasil.
A expedição imperial pelo Rio São Francisco durou dez dias, em um roteiro que combinou trechos em um Vapor (220 quilômetros) e deslocamentos a cavalo (87 quilômetros). Em seu diário, Dom Pedro II registrou as impressões da passagem pelo local: “O panorama mais encantador é o que ofereceu o Monte dos Prazeres, em cujo cimo há uma capela de elegante construção, edificada, segundo dizem, em 1694. De fronte da Lagoa Funda, volto ao vapor; fui à capela, que é pequena e com morcegos, e depois à aula de meninos que estavam no desembarque” ... escreveu o imperador.
No nosso grupo, está o arquiteto e professor Alexandre Toledo. Ele pesquisa sobre a monarquia e visita municípios que estão incluídos na rota do imperador: “Conferir o percurso que o imperador Dom Pedro II fez no baixo São Francisco é uma forma de reviver os tempos gloriosos da monarquia. O magnânimo era um visionário; já almejava a transposição das águas do velho Chico para amenizar a seca do sertão e do semi-árido nordestino”, afirma Alexandre.
Uma das principais defensoras da preservação e restauração da igreja Nossa Senhora dos Prazeres é a pesquisadora Girlene Monteiro. Ela deu entrada no processo de tombamento junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e à Secretaria Estadual e Cultura e atualmente busca apoio dos órgãos oficiais para viabilizar também a restauração.
“Nossa intenção é defender a restauração para preservar as características originais. Realizei uma pesquisa extensa em Lisboa, Recife, São Paulo e Salvador e protocolei o pedido de tombamento tanto pelo Iphan quanto pela Secretaria Estadual de Cultura”, explica Girlene. O tombamento estadual ocorreu em 23 de julho de 2021, por meio do Decreto nº 75.306, mas o reconhecimento federal, pelo Iphan, ainda aguarda conclusão.
Hospedagem e arte
Girlene também é proprietária de uma pousada com vista para a bela paisagem do Velho Chico, localizada a cerca de 30 minutos da Igreja Nossa Senhora dos Prazeres. O espaço recebe turistas interessados em conhecer o patrimônio histórico e cultural da região e também acolhe artesãos, oferecendo visibilidade aos seus trabalhos.
No local, encontramos o ex-pescador Zé Branco, de 49 anos, que reaproveita materiais antes utilizados na pesca, como tarrafas, redes e madeira. “Tudo aqui é madeira morta, que iria para o lixo. Eu reutilizo e transformo em objetos de decoração e peças utilitárias”, afirma. Parte da produção do artesão pode ser conferida no Instagram @zebranco_artesao.
Outra artesã que expõe na pousada é Elisa Marques. “Comecei no bordado, aprendi com minha mãe e minha avó e sempre tive espírito empreendedor. Mais tarde, ao lado do meu primo Maurício Mandacaru, passei a me interessar pelo trabalho em madeira. Iniciei no ano passado com a produção de presépios e, hoje, crio brincos e peças que representam nossa região, como cactos, pássaros e flores.” Suas criações estão à venda em lojas e hotéis de Maceió e Aracaju e também podem ser encontradas no Instagram @artesa.elisa_.
Subir e descer o morro e contemplar, na parte baixa da região, o Rio São Francisco é mais do que alcançar um ponto turístico ou religioso. É atravessar o tempo, perceber o valor da história e compreender por que, há séculos, fiéis, viajantes e curiosos insistem em fazer a subida. Diante da igreja e da paisagem do Velho Chico, o sertão silencia — e a experiência se transforma em memória.