Resgate de receitas tradicionais como estratégia de bem-estar mental
O resgate de receitas tradicionais tem ganhado novo significado, em meio a rotinas aceleradas, níveis crescentes de ansiedade e busca por equilíbrio emocional. A relação entre comida, emoção e identidade cultural ajuda a explicar por que pratos ligados à infância e à história familiar voltam a ocupar espaço no dia a dia, ativando memórias afetivas, criando pausas conscientes na rotina e contribuindo para o bem-estar mental.
Na psicologia aplicada à alimentação, a chamada gastronomia afetiva está associada à capacidade que sabores, aromas e gestos repetidos têm de evocar lembranças e sentimentos de segurança. Assim, ao preparar ou consumir uma comfort food, o indivíduo se conecta não apenas ao alimento, mas a experiências vividas, relações familiares e contextos de cuidado.
O poder da gastronomia afetiva no cotidiano
A memória afetiva é construída a partir de experiências sensoriais marcantes. Na alimentação, o olfato e o paladar têm papel decisivo, pois estão diretamente ligados às áreas cerebrais responsáveis pelas emoções. Cozinhar pratos conhecidos ativa essas conexões de forma imediata, criando uma sensação de familiaridade que ajuda a regular o humor.
Segundo o Ministério da Saúde ressalta, resgatar cadernos de receitas da família fortalece vínculos, estimula escolhas alimentares mais equilibradas e contribui para uma relação mais positiva com a comida. A prática também reforça a identidade cultural, ao preservar modos de preparo, ingredientes locais e histórias transmitidas ao longo do tempo. Dessa forma, ao repetir uma receita ensinada por pais ou avós, o indivíduo atualiza laços afetivos e mantém viva uma narrativa familiar.
Benefícios do resgate de receitas tradicionais para a saúde mental
O resgate de receitas tradicionais não se limita à nostalgia. Um estudo publicado na revista Frontiers in Nutrition acompanhou participantes de cursos de culinária saudável e identificou melhora no bem-estar físico e mental, mantida mesmo meses após o término das aulas. Para a pesquisadora Joanna Rees, melhorar a qualidade da alimentação pode atuar como estratégia preventiva, frente ao avanço de problemas de saúde mental e metabólica.
Além do impacto emocional, o ato de cozinhar promove sensação de autonomia e competência, fatores associados à autoconfiança e à redução da ansiedade. A nutricionista Kátia Souza afirma que o hábito de cozinhar desenvolve habilidades práticas e sociais, favorecendo mudanças de comportamento e maior interação entre as pessoas. Ela também destaca que a cozinha terapêutica estimula escolhas mais conscientes e o afastamento de alimentos ultraprocessados, beneficiando corpo e mente.
No cotidiano, receitas simples da culinária caseira cumprem esse papel de conforto. O preparo de alimentos clássicos da cultura brasileira, como o bolinho de chuva, por exemplo, atua como lembrança de cuidado e acolhimento, conectando gerações e criando momentos de pausa em meio à rotina acelerada.
Cozinhaterapia: preparo como ritual de presença e bem-estar
A cozinhaterapia, termo usado para descrever o uso consciente do preparo de alimentos como prática de autocuidado, tem sido abordada por pesquisadores e veículos especializados em saúde e comportamento. A proposta não é transformar a cozinha em obrigação, mas em espaço de presença e atenção plena, em que o processo importa tanto quanto o resultado.
Entre alguns dos benefícios associados à cozinhaterapia, destacam-se:
redução do estresse, por meio de atividades manuais e repetitivas;
estímulo à atenção plena, ao focar em aromas, texturas e tempos de preparo;
fortalecimento da autonomia e da organização da rotina;
incentivo a uma alimentação mais natural e consciente;
criação de momentos de socialização e troca afetiva.
Memória afetiva e gastronomia
No cruzamento entre memória afetiva, identidade cultural e cuidado emocional, a gastronomia ocupa um espaço singular.
Sem prometer curas ou soluções imediatas, o resgate de receitas tradicionais é uma estratégia acessível de promoção do bem-estar mental, capaz de fortalecer vínculos, reduzir tensões do dia a dia e devolver à comida seu papel de afeto, presença e continuidade.
Fonte: Assessoria