Notícias

Robótica na medicina e o verdadeiro papel das máquinas no centro cirúrgico

Por Jaime Galvez

A presença de robôs em centros cirúrgicos já é realidade em hospitais de alta complexidade no Brasil e no mundo. Ainda assim, o debate público continua preso a uma pergunta simplificada. As máquinas vão substituir os médicos?

Essa leitura parte de um entendimento equivocado sobre o papel da tecnologia. Eu trabalho há mais de duas décadas com automação industrial, um ambiente onde a robótica já é consolidada e existe um princípio que se repete tanto nas fábricas quanto nos hospitais. Robôs são extremamente eficientes na execução de tarefas repetitivas com alto nível de precisão. Fora disso, ainda dependem integralmente do ser humano.

Na medicina, essa diferença é ainda mais evidente. Uma cirurgia não é uma atividade padronizada. Cada paciente apresenta variações anatômicas, responde de forma distinta e pode exigir decisões, que lhe custam vidas, em tempo real. Não há repetição perfeita e esse é justamente o ponto que o médico se torna insubstituível. O que a robótica faz é ampliar a capacidade humana dentro desse processo.

Um bom exemplo é o Sistema Cirúrgico Da Vinci, que não opera de forma autônoma. São conduzidos por médicos, que utilizam a tecnologia para obter mais precisão, estabilidade e controle em movimentos delicados. O robô não decide, ele executa com precisão. Essa distinção é central para entender o impacto real da tecnologia.

Existe um equívoco recorrente no debate público. Confunde-se automação com autonomia. Um sistema pode executar aquilo que foi programado, mas não tem capacidade de julgamento. E, na medicina, decidir é tão importante quanto executar. Ao mesmo tempo, o uso da robótica eleva o nível de segurança dos procedimentos.

Um sistema programado respeita limites milimétricos e mantém consistência ao longo de toda a operação. Não sofre com fadiga, não perde estabilidade e reduz a margem de erro em tarefas específicas. Isso não elimina o risco, mas muda o padrão de controle sobre ele e esse movimento não é novo.

Na indústria, a automação já transformou profundamente o trabalho ao longo das últimas décadas. Robôs passaram a executar atividades repetitivas, pesadas e de maior risco, enquanto profissionais migraram para funções técnicas, como operação, programação e supervisão. O resultado não foi a eliminação do trabalho humano, mas sua transformação. Na medicina, esse processo ocorre de forma mais sensível e mais complexa.

Para que um sistema robótico funcione em um centro cirúrgico, é necessário um conjunto amplo de profissionais envolvidos. Há planejamento prévio, análise de imagens, definição de parâmetros, operação assistida e acompanhamento posterior. O robô não simplifica o processo, o torna mais sofisticado.

Outro ponto pouco discutido é o custo. A adoção de sistemas robóticos exige investimentos elevados e não se justifica apenas por eficiência financeira. Em muitos casos, o investimento é maior do que a execução tradicional. A decisão passa por segurança, precisão e padronização de resultados, especialmente em procedimentos onde o erro tem consequências graves. Ainda assim, é importante manter um olhar realista sobre os limites da tecnologia.

Existe uma distância significativa entre os sistemas atuais e a ideia de máquinas capazes de tomar decisões complexas de forma autônoma. A evolução é rápida, mas ainda não alcança elementos essenciais como percepção, interpretação de contexto e julgamento clínico.

Confundir execução com inteligência é um erro comum. Robôs executam com precisão aquilo que foi definido. Médicos lidam com o que não pode ser previsto. O avanço da robótica não elimina o papel do médico. Ele redefine o nível de exigência sobre ele e torna o erro menos tolerável.

Jaime Galvez é engenheiro mecatrônico e especialista em automação industrial, com mais de duas décadas de atuação em projetos ligados à modernização de linhas de produção, especialmente na indústria automotiva. Ao longo da carreira, participou da implementação e integração de sistemas robóticos em ambientes industriais complexos, com foco em eficiência operacional, segurança e redução de riscos ocupacionais. Seu trabalho envolve desde a programação e integração de robôs até a análise de processos produtivos e transformação de funções dentro das fábricas diante da automação.