Entre calor e chuvas, o que o El Niño revela sobre o país
Por Edson Grandisoli*
O El Niño, fenômeno climático natural que ocorre de forma periódica, volta ao centro do debate diante da previsão de um novo episódio entre 2026 e 2027. Caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico, o evento altera a circulação atmosférica em escala global e impacta diretamente o clima em diferentes regiões do planeta, incluindo o Brasil. Indícios desse movimento já são observados. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), padrões atmosféricos associados ao fenômeno começam a se consolidar, com tendência de aumento das chuvas na Região Sul.
Os efeitos recentes ajudam a dimensionar o quadro. Em 2024, o país enfrentou seca severa na Amazônia, elevação do volume de chuvas no Sul e no Sudeste e ondas de calor persistentes em diversas áreas. A expectativa é de repetição desse padrão, possivelmente com maior intensidade, impulsionada pela combinação entre o El Niño e as mudanças climáticas em curso.
As temperaturas elevadas têm impacto direto na saúde. Crianças, idosos e pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias estão entre os grupos mais suscetíveis. O calor intenso aumenta o risco de desidratação, restringe atividades ao ar livre e eleva o consumo de energia elétrica. Ao mesmo tempo, episódios de chuva forte ampliam a possibilidade de enchentes, sobretudo em áreas urbanas com infraestrutura insuficiente.
Nesse contexto, o acesso à informação ganha relevância. A conscientização se constrói em diferentes espaços, da casa à escola, e depende da compreensão contínua das transformações do clima. O diálogo com crianças e jovens, a partir de situações do cotidiano, favorece a percepção das relações entre ação humana e alterações ambientais. Medidas simples, como registrar temperatura e volume de chuva ao longo do tempo, ajudam a tornar essas mudanças mais concretas.
As respostas também passam pelo coletivo. A adaptação envolve desde o descarte correto de resíduos, que influencia diretamente a ocorrência de enchentes, até a adoção de práticas que reduzam impactos ambientais. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por ações estruturais.
Buscar informação de qualidade, exigir transparência de governos e empresas, valorizar práticas socioambientais consistentes e acompanhar a atuação de lideranças políticas são medidas fundamentais. A proteção das populações mais vulneráveis deve ocupar posição central nas estratégias públicas, integrando políticas de clima, saúde, habitação, assistência social e educação.
Com a ciência indicando tendências e possíveis impactos, o enfrentamento do El Niño exige planejamento e ação coordenada. A articulação entre prevenção, adaptação e responsabilidade compartilhada será decisiva para reduzir danos e responder a um cenário climático mais instável.
*Edson Grandisoli é referência brasileira em Educação e Meio Ambiente, um dos criadores do Movimento Escolas pelo Clima. Biólogo, mestre em Ecologia, doutor em Educação e Sustentabilidade pela Universidade de São Paulo e pós-doutor pelo Instituto de Estudos Avançados da USP