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1ª fase da Fuvest: como se preparar para a prova, que acontece no domingo (1/11)

Segundo educador, agora é hora de cuidar da saúde mental, alimentação e descanso | Pexels

A 1ª fase do Vestibular 2027 da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), principal processo seletivo de ingresso nos cursos de graduação da Universidade de São Paulo (USP), acontece no próximo domingo, 1º de novembro. A poucos dias de uma das provas mais tradicionais e concorridas do país, é natural que os candidatos convivam com uma combinação de expectativa, ansiedade e pressão pelo desempenho.

Para Henrique Barreto Andrade Dias, coordenador pedagógico do Brazilian International School - BIS, de São Paulo (SP), neste momento, tão importante quanto dominar os conteúdos é saber administrar os próprios recursos cognitivos e emocionais.

“Na reta final, o estudante precisa compreender que estudar mais nem sempre significa aprender melhor. Tentar assimilar grandes volumes de conteúdos inéditos às vésperas da prova tende a aumentar a carga cognitiva e a sensação de insegurança. O mais produtivo agora é fortalecer aquilo que já foi construído ao longo do processo, utilizando estratégias de recuperação ativa da informação, como tentar explicar um conceito sem consultar o material, resolver algumas questões, revisar erros recorrentes e utilizar mapas, fichamentos ou esquemas de síntese”, orienta Henrique.

Segundo o educador, os últimos dias também devem ser utilizados para construir um estado de maior previsibilidade. “Quanto menos decisões desnecessárias o estudante precisar tomar no dia da prova, maior será a disponibilidade mental para aquilo que realmente importa: ler, interpretar, raciocinar e decidir.”

Como funciona a 1ª fase da Fuvest 2027?

A edição de 2027 apresenta uma mudança importante em relação aos anos anteriores. A prova da 1ª fase passa de 90 para 80 questões objetivas de múltipla escolha, cada uma com cinco alternativas, mantendo as cinco horas de duração. A alteração amplia o tempo disponível para reflexão e acompanha uma tendência de maior interdisciplinaridade do vestibular.

As questões contemplam os componentes de Português, Matemática, Física, Química, Biologia, História, Geografia, Inglês, Filosofia, Sociologia, Arte e Educação Física, além de itens que estabelecem conexões entre diferentes campos do conhecimento.

Na avaliação de Henrique, essa característica exige mais do que simples memorização. “A Fuvest valoriza um repertório acadêmico consistente, mas também exige que o estudante saiba mobilizar esse conhecimento diante de situações novas. Não basta reconhecer uma fórmula, uma data histórica ou um conceito. É preciso compreender qual informação o enunciado oferece, identificar o conhecimento que precisa ser acionado e estabelecer relações para chegar à resposta.”

Outro ponto de atenção são as obras de leitura obrigatória. Para o Vestibular 2027, a lista é formada exclusivamente por autoras mulheres da literatura em língua portuguesa:

Opúsculo Humanitário, de Nísia Floresta;
Nebulosas, de Narcisa Amália;
Memórias de Martha, de Julia Lopes de Almeida;
Caminho de pedras, de Rachel de Queiroz;
A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector;
Geografia, de Sophia de Mello Breyner Andresen;
Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane;
Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo;
A visão das plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida.

Na reta final, porém, não é recomendável tentar realizar às pressas a leitura integral de uma obra que não foi estudada anteriormente. “Neste momento, o mais adequado é recuperar personagens, conflitos, estrutura narrativa, contexto histórico e social, características estéticas e relações possíveis entre as obras. A revisão deve funcionar como uma ativação de conhecimentos previamente construídos, e não como uma tentativa de reconstruir todo o percurso de preparação em poucos dias”, explica Henrique.

Estratégia de prova e gestão do tempo

Com 80 questões distribuídas ao longo de cinco horas, o candidato dispõe, matematicamente, de aproximadamente 3 minutos e 45 segundos por questão. Mas, segundo Henrique, transformar essa média em uma regra rígida pode ser um erro. “Nem todas as questões demandam o mesmo tempo. Algumas podem ser resolvidas rapidamente; outras exigirão leitura, cálculos e diferentes etapas de raciocínio. O estudante precisa pensar na prova como uma gestão de recursos: tempo, atenção e energia mental.

Uma estratégia possível é iniciar por questões ou áreas nas quais o candidato tenha maior segurança, garantindo pontos e aumentando progressivamente a sensação de controle. “Começar por uma sequência de questões extremamente difíceis pode gerar uma percepção equivocada de fracasso logo no início da prova. Quando o candidato começa por itens que consegue resolver, entra no ritmo do exame, recupera a confiança e preserva energia para problemas mais complexos.”

Isso não significa fugir das questões difíceis, mas saber administrá-las. “Se uma questão está consumindo muito tempo e o candidato percebe que não está avançando, é melhor sinalizá-la e seguir. Permanecer vários minutos preso a um único item pode comprometer questões que ele teria condições de acertar posteriormente.”

Leia o comando antes de enfrentar o problema

Uma das estratégias recomendadas pelo coordenador é identificar claramente o que a questão está pedindo antes de iniciar a resolução. “Em provas extensas, é comum que o estudante processe uma grande quantidade de informações e apenas no final perceba qual era exatamente a tarefa. Uma leitura estratégica começa pela identificação do comando: o que preciso encontrar? O que preciso explicar? Qual relação está sendo solicitada?”

Henrique ressalta, entretanto, que isso não significa fazer uma leitura superficial. “A ideia é estabelecer uma intenção de leitura. Quando o cérebro sabe o que procura, consegue organizar melhor as informações relevantes do enunciado e reduzir a sobrecarga da memória de trabalho.”

Termos como “correta”, “incorreta”, “exceto”, “respectivamente”, “principalmente” e “segundo o texto” também merecem atenção especial, pois pequenas alterações no comando podem modificar completamente a resposta esperada.

Eliminação de alternativas também é estratégia

Nas questões em que a resposta não aparece imediatamente, o candidato pode trabalhar pela eliminação criteriosa das alternativas. “O aluno não precisa pensar apenas em encontrar a alternativa correta; ele também pode identificar por que determinadas alternativas estão erradas. Esse processo reduz o universo de possibilidades e ajuda a organizar o raciocínio.”

Segundo Henrique, é importante diferenciar a dúvida de desconhecimento absoluto. “Às vezes o estudante olha para uma questão e acredita que não sabe respondê-la, mas, quando começa a eliminar alternativas conceitualmente incompatíveis, percebe que possui mais repertório do que imaginava.”

Cuidado com a troca impulsiva de respostas

Outro comportamento comum em provas de alta pressão é alterar uma resposta apenas por insegurança. “Revisar é importante, mas a mudança precisa estar baseada em uma evidência: perceber um erro de cálculo, encontrar uma informação no texto que não havia sido considerada ou recordar corretamente determinado conceito. Trocar uma alternativa somente porque surgiu uma insegurança repentina pode transformar a revisão em um processo de autossabotagem.”

A folha de respostas faz parte da estratégia

A organização do preenchimento do gabarito também deve ser planejada. “A prova não termina quando o estudante resolve a última questão; ela termina quando as respostas estão corretamente registradas. Depois de várias horas de concentração, a atenção já apresenta sinais de fadiga, aumentando a possibilidade de erros de transcrição.”

Por isso, Henrique recomenda que o candidato não deixe todo o preenchimento para os minutos finais. “É possível transferir as respostas em blocos ao longo da prova ou estabelecer momentos específicos para isso. Independentemente da estratégia escolhida, é fundamental reservar uma margem confortável antes do encerramento.”

Controle da ansiedade e mindfulness

Para Henrique, sentir alguma ansiedade diante de uma prova importante é esperado. “O objetivo não é eliminar totalmente o nervosismo, mas impedir que ele comprometa a capacidade de raciocínio. Quando o estudante percebe que está muito acelerado, uma breve técnica de mindfulness pode ajudar a recuperar o foco.”

A orientação é simples: apoiar os pés no chão, relaxar os ombros, inspirar suavemente pelo nariz e realizar uma expiração um pouco mais longa, por alguns ciclos. Um ritmo confortável, como inspirar por cerca de quatro segundos e expirar por seis, pode ajudar a reduzir a ativação fisiológica, desde que não gere desconforto.

“Depois de alguns ciclos, o estudante pode perceber o contato do corpo com a cadeira, voltar a atenção para o ambiente e fazer uma pergunta objetiva: ‘qual é a próxima ação que preciso realizar agora?’. Esse movimento ajuda a deslocar a mente de pensamentos antecipatórios para a tarefa presente.”

Segundo Henrique, a técnica funciona melhor quando já foi praticada anteriormente. “Mindfulness não significa esvaziar a mente, e sim perceber que a atenção se desviou e direcioná-la novamente para aquilo que importa.”

Sono e memória: estudar de madrugada pode produzir o efeito contrário

Na véspera do vestibular, uma das prioridades deve ser o sono. “O sono não representa ausência de preparação. Ele faz parte da preparação. Processos relacionados à consolidação da memória, à atenção, à velocidade de processamento e ao controle executivo dependem de um organismo adequadamente descansado.”

Por isso, virar a madrugada tentando realizar uma última grande revisão pode comprometer justamente as funções cognitivas que serão necessárias no dia seguinte. “Nas últimas horas, o ganho marginal de estudar mais um conteúdo tende a ser muito menor do que o prejuízo potencial de chegar à prova cansado, irritado e com dificuldade de sustentar a atenção.”

Movimento, alimentação e rotina na véspera

O cuidado físico também integra a estratégia de preparação.

Atividade física moderada: caminhadas, mobilidade, alongamentos ou atividades leves podem contribuir para o bem-estar. Exercícios excepcionalmente intensos devem ser evitados se houver possibilidade de gerar dores, desgaste ou prejuízo ao sono;

Alimentação previsível: não é o momento de experimentar dietas, suplementos ou alimentos desconhecidos. Refeições habituais, equilibradas e de boa digestibilidade diminuem o risco de desconfortos gastrointestinais;

Hidratação: deve ocorrer ao longo do dia, evitando tanto a desidratação quanto o consumo exagerado de líquidos imediatamente antes ou durante a prova;

Cafeína: estudantes que já consomem café regularmente podem manter seu padrão habitual, evitando exageros. Aumentar abruptamente o consumo pode intensificar tremores, palpitações e ansiedade.

No dia da prova: diminua o número de imprevistos

Outra recomendação é organizar com antecedência tudo o que estiver sob controle do candidato. “Documento, material permitido, alimentação, trajeto e horário de saída devem estar definidos antes. Organização externa reduz ruído interno. Quando o estudante diminui a quantidade de pequenas preocupações logísticas, preserva recursos atencionais para a prova.”

Alimentos leves e água também podem ser importantes durante o exame, dando preferência a opções já conhecidas, práticas e que não provoquem desconforto.

Na reta final, confiança deve vir do processo

Para Henrique, talvez o maior desafio das últimas horas seja resistir à sensação de que ainda falta aprender tudo. “Nenhum candidato chegará a uma prova dessa dimensão dominando absolutamente todos os conteúdos. A preparação madura envolve reconhecer isso e concentrar energia no que está sob controle.”

O coordenador destaca que confiança não significa acreditar que todas as questões serão fáceis. “Autoconfiança acadêmica não é pensar ‘eu vou saber tudo’. É conseguir dizer: ‘quando eu encontrar algo difícil, tenho estratégias para lidar com isso’. Sei avançar, sei voltar, sei administrar meu tempo, sei reconhecer o que a questão solicita e sei recuperar aquilo que construí ao longo do ano.”

E deixa uma última orientação aos vestibulandos: “Nos últimos dias, é importante abandonar a lógica de acumular conteúdo e entrar na lógica de preservar desempenho. O conhecimento já foi construído ao longo de meses ou anos. Agora, o papel do estudante é criar condições para que esse repertório esteja acessível no momento em que precisar dele. Em uma prova longa e exigente como a Fuvest, saber autorregular atenção, tempo e emoções também faz parte da competência acadêmica.”

Henrique Barreto Andrade Dias é licenciado em Geografia e Sociologia, possui especialização em projetos para o terceiro setor e pós-graduação em Psicologia Positiva, Neurociência, Mindfulness, Neuropsicopedagogia e Neurociência Aplicada à Aprendizagem. Atua na área da Educação há 18 anos e atualmente é coordenador pedagógico do currículo brasileiro do Brazilian International School.

Fonte: Assessoria