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COP 30: Cooperativa de marisqueiras vira exemplo de sustentabilidade em Alagoas

Produção artesanal de sururu cresce na região e contribui para a fabricação de tijolos sustentáveis, ganhando visibilidade durante a conferência global do clima no Brasil

Às margens da Lagoa Mundaú, em Maceió, o sururu é mais que um molusco: é símbolo de resistência e sustento para gerações de mulheres. Mas a extração artesanal, historicamente feita em condições precárias, ganhou novo significado com a Cooperativa de Marisqueiras Mulheres Guerreiras (Coopmaris). Em meio aos debates globais da COP 30, a iniciativa surge como modelo de desenvolvimento sustentável que integra economia, saúde ambiental e inclusão social.

Mesmo com uma sede ampla e moderna, a cooperativa permaneceu inoperante durante muito tempo por falta de adequações exigidas pelo órgão de vigilância sanitária. Foi então que a Sicredi Expansão, por meio de seu Fundo Social, entrou em cena. Com um investimento de R$ 15 mil, a instituição viabilizou a instalação de pias, torneiras com jato direcional, sistemas de ventilação e portas de alumínio, permitindo a abertura oficial do local.

“A Sicredi executou tudo simultaneamente, e isso mudou a vida das meninas”, relata Renata Amorim, vice-coordenadora do Comitê Mulher da Sicredi Expansão em Alagoas. “A partir desse momento, a sede começou a funcionar, recebeu visitas, propostas de trabalho e ganhou credibilidade.”

Para Vanessa Santos, presidente da Coopmaris, a transformação vai além da infraestrutura. “A gente montou a cooperativa no intuito de melhorar nossas vidas e a dos nossos filhos, para ter um trabalho mais digno”, afirma. “Entendemos que nossa profissão é igual à de qualquer pessoa: o importante é que seja digna.”

Com a sede em funcionamento, as 40 cooperadas – das quais 18 atuam regularmente – passaram a beneficiar o sururu em ambiente salubre, com estrutura adequada. Hoje, o produto é comercializado diretamente in natura para hotéis e restaurantes, para pessoas que encomendam o Sururu pronto no pote e em eventos oficiais da prefeitura de Maceió.

A atuação da Coopmaris também reflete a sensibilidade das marisqueiras às mudanças climáticas. O sururu é sazonal e sensível à variação de salinidade da lagoa, afetada por chuvas intensas e esgoto não tratado. “As mudanças climáticas influenciam diretamente no comportamento do molusco. Aprendemos que quando a temperatura ultrapassa o limite tolerado ocorre estresse térmico, diminuindo o crescimento e podendo causar mortalidade. O sururu é um molusco bivalve e depende de bons níveis de oxigênio para filtrar e se alimentar”, explica Renata Amorim. “A pesca artesanal do sururu é um termômetro da saúde da Lagoa Mundaú”.

A inovação na cadeia produtiva do sururu vai além do beneficiamento do molusco. Na região, um projeto de economia circular passou a reutilizar as cascas, anteriormente descartadas como lixo e atreladas a impactos ambientais e riscos à saúde, como insumo para a produção de cobogós e revestimentos. Conhecidos como Cobogós Mandaú, esses tijolos sustentáveis são confeccionados por moradores locais e vendidos em lojas de alto padrão, criando uma alternativa de geração de renda para as famílias da comunidade.

O projeto segue em expansão. As marisqueiras buscam, agora, equipar completamente a sede, ampliar a capacidade de produção e implementar tecnologias de depuração do sururu para reduzir toxinas. “Elas têm coragem, querem acesso a mais tecnologia e informação”, destaca Renata.

“O cooperativismo é, por essência, um modelo que coloca as pessoas e o desenvolvimento sustentável no centro das decisões. Temos buscado materializar o compromisso de fortalecer cooperativas lideradas por mulheres, que promovem inclusão, geração de renda e impacto positivo nas comunidades, conectando prosperidade econômica, equidade social e cuidado com o planeta”, afirma Karina Lira, gerente de Desenvolvimento do Cooperativismo da Sicredi Expansão.

Enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP 30, a Coopmaris demonstra como o apoio a iniciativas locais pode gerar impactos sistêmicos, desde o empoderamento de mulheres à preservação de ecossistemas ameaçados e inovação em matérias-primas sustentáveis. A cooperativa não apenas resgata a dignidade do trabalho das marisqueiras, mas também fortalece uma cadeia produtiva que depende diretamente do equilíbrio ambiental.



Ascom Sicredi Nordeste