Sucesso profissional em tempos de exaustão: por que tanta gente competente sente que está falhando
Mais de 546 mil trabalhadores brasileiros foram afastados do trabalho por problemas de saúde mental em 2025, segundo dados da Previdência Social. O número recorde ajuda a dimensionar uma contradição cada vez mais presente no mercado de trabalho: ao mesmo tempo em que cresce a pressão por produtividade, também aumenta a expectativa de que profissionais sejam emocionalmente equilibrados, realizados com o que fazem e ainda consigam manter uma vida pessoal saudável.
Na prática, essa soma de expectativas tem produzido um efeito paradoxal: nunca se falou tanto em saúde mental no trabalho e, ao mesmo tempo, nunca tantos profissionais relataram exaustão, insegurança e a sensação constante de não estar à altura das próprias responsabilidades.
Para a psicóloga Sabine Heumann do Amaral, o cenário atual criou uma espécie de “pressão ampliada” sobre o indivíduo. “Durante muito tempo, o trabalho exigia desempenho. Hoje ele também exige propósito, felicidade, equilíbrio e autoconsciência. Tudo isso se transforma em mais uma série de cobranças”, explica.
Com 15 anos de experiência como psicóloga, Sabine é especialista em Psicologia Clínica e Gestão de Pessoas, além de mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Pará (UFPA), na linha de Teoria e Pesquisa do Comportamento. Ao longo da carreira, ela observa que uma das queixas mais frequentes entre profissionais qualificados é a sensação persistente de insuficiência, mesmo quando há reconhecimento externo.
Esse fenômeno aparece frequentemente associado ao que tem sido chamado de síndrome do impostor: a percepção de que o próprio sucesso não é legítimo ou de que, em algum momento, a pessoa será “descoberta” como alguém menos competente do que aparenta. “É comum encontrar profissionais altamente preparados que vivem com a impressão de que estão sempre devendo algo. Mesmo quando atingem metas ou recebem elogios, rapidamente mudam o parâmetro para um novo patamar de exigência”, afirma a psicóloga.
Segundo Sabine, parte dessa dinâmica está relacionada ao modo como o trabalho se reorganizou nas últimas décadas. A aceleração tecnológica, a competitividade crescente e a cultura de alta performance tornaram o ambiente profissional mais dinâmico e também mais exigente. Ao mesmo tempo, as redes sociais passaram a expor trajetórias profissionais filtradas, criando uma sensação permanente de comparação.
“O problema não está em buscar crescimento ou desenvolvimento profissional. A questão é quando o sucesso deixa de ser um processo e passa a funcionar como uma linha de chegada que nunca chega de fato”.
Outro ponto que chama atenção é a expectativa de que o trabalho seja, ao mesmo tempo, fonte de sustento, identidade, realização pessoal e felicidade. Para muitos profissionais, essa combinação pode gerar frustração constante. “Nem sempre o trabalho precisa cumprir todas essas funções ao mesmo tempo. Quando a pessoa acredita que deveria se sentir plenamente realizada o tempo todo, qualquer frustração passa a ser interpretada como sinal de fracasso”, observa Sabine.
Quando a fama não protege da insegurança
A distância entre reconhecimento público e sensação de realização pessoal também aparece em relatos de figuras conhecidas do grande público. Nos últimos anos, artistas de projeção internacional têm falado abertamente sobre insegurança profissional e esgotamento, ajudando a ampliar a discussão sobre saúde mental.
Um dos exemplos mais comentados é o da atriz e produtora Margot Robbie. Mesmo após protagonizar e produzir o fenômeno cultural representado pelo filme Barbie, a artista relatou em entrevistas recentes que continua convivendo com a sensação de não estar à altura do próprio trabalho. Segundo ela, a ansiedade costuma surgir justamente no início de novos projetos, quando aparece o medo de que as pessoas descubram que ela “não sabe o que está fazendo”.

Em determinado momento da preparação para o longa, Robbie chegou a escrever para a diretora Greta Gerwig dizendo que não tinha certeza se conseguiria interpretar a personagem, apesar de ser também produtora do filme.
No Brasil, um episódio envolvendo o ator, diretor e escritor Lázaro Ramos também reacendeu o debate sobre os limites da alta performance. Em 2024, ele precisou ser internado após desmaiar em casa, em um quadro associado a esgotamento físico e mental. Em relatos posteriores, o artista descreveu a experiência como um momento em que o corpo simplesmente “desligou”, resultado de uma rotina marcada por excesso de demandas e dificuldade de desconectar da vida profissional.
Para a psicóloga Sabine Heumann do Amaral, relatos como os de artistas e profissionais de grande visibilidade ajudam a desmistificar a ideia de que o reconhecimento externo seria suficiente para gerar segurança interna. “Quanto maior a visibilidade ou a responsabilidade de alguém, maior também pode ser a pressão interna para não falhar. A pessoa passa a sentir que precisa confirmar o próprio valor o tempo todo”.
Por fim, a psicóloga avalia que um dos desafios atuais é reconstruir uma relação mais equilibrada com o desempenho profissional, reconhecendo limites e revendo parâmetros de sucesso que muitas vezes foram internalizados sem reflexão. “Uma carreira saudável não é aquela em que a pessoa nunca se sente cansada ou insegura. É aquela em que existe espaço para crescimento sem que o indivíduo precise viver permanentemente em estado de cobrança consigo mesmo”, finaliza.
Assessoria