Neomedievo*: a prepotência de alguns em prejuízo à generosidade da maioria

Sandro Melros - é advogado, escritor e professor
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A Idade Média registrou uma das experiências mais violentas da humanidade. Sinceramente, guardando os devidos aspectos históricos e sociais, a impressão que fica é de que estamos revivendo alguns de seus acontecimentos infames, entre eles, o endurecimento das relações entre as pessoas. Assemelha-se a uma espécie de recrudescimento de uma doença maligna devastando as relações como ocorreu, por exemplo, com o surto da peste bubônica à época medieval.
As pessoas estão banalizando as constantes humilhações acometidas desde o mais frágil cidadão, aquele a quem as condições de vida sejam desfavoráveis, até aqueles que tiveram, neste país, o privilégio – insiste-se: privilégio – de conseguir ser educado razoavelmente e ter uma renda apta a prover as necessidades mais básicas. A precarização da vida consta, inclusive, de atitudes que ferem e, até mesmo, matam pessoas. Isso ocorre, muitas vezes, simplesmente porque são indivíduos pobres, por exemplo, mendigos que são queimados nas ruas, idosos espancados, indivíduos apedrejados e mulheres constantemente estupradas. São notícias nos jornais diários que sequer abalam minimamente a maioria das pessoas, tão frequentes que são esses fatos.
Alguns indivíduos, diante desse caos social, comportam-se acima do bem e do mal, como se fossem verdadeiros bastiões da moralidade e pudessem censurar os demais. A arrogância aliada à crueldade ganha campo e representa a face de um país corrompido de sua essência pueril narrada na carta-registro de Pero Vaz de Caminha, ao narrar ao rei a pureza e a candura dos nativos aqui encontrados nos idos de 1500. Experimentou-se no país, desde então, a verdadeira involução humana, a bestialidade que só crescera com a colonização que escravizou índios e negros e maculou a possibilidade de um povo de manifestar a rica pluralidade cultural, como vantagem dessa nova sociedade.
Vive-se com a expectativa de um dia tudo melhorar. Todavia, não se tem a medida exata de quando isso acontecerá. Nesse ínterim, há um apego constante a um salvador da pátria, alguém que poderá melhorar a vida de todos. Na verdade, essa situação é vã, destituída de sentido, posto que se veja aprofundar a distância social entre as pessoas, num cenário em que, cada um, segue por si só sem que a coletividade represente uma diferença significativa na vida de todos.
A população acostumou-se com essa divisão em que a minoria esmagadora controla a maior parte dos recursos capitais e se arvoram senhores dos demais. Comportamento revelado pelas multinacionais, bancos e afins que têm como meta a expropriação do outro, o enriquecimento a todo custo e a dominação da força de trabalho até a exaustão do indivíduo. Não há como suportar a hipocrisia de campanhas governamentais pedindo paciência para que tudo tome sua normalidade quando se veem crianças vítimas de bala perdida, idosos em chão de corredores de hospitais, famílias comendo sobras do lixo e trabalhadores explorados com regime de tempo laboral que chegam a várias horas acima do que a lei permite, sem dia algum de folga.
A máxima deste país, em sua essência, determina que só se torne rico aquele que tem como prática a exploração da força de trabalho do indivíduo ou o desvio de dinheiro público. Não se procura viver sem de alguma forma tirar dos mais pobres direta ou indiretamente. Neste último caso, quando se retiram as verbas públicas da ideal aplicação em serviços ao cidadão, por exemplo, a serviço da proteção de políticos, parentes e asseclas. Um país em que a bajulação dita as regras de uma sobrevivência sanguessuga e desestruturante. Uma nação fadada a ser um ambiente de comparações esdrúxulas e, para se projetar socialmente, o indivíduo que se destaca, por exemplo, no futebol, na música, precisa ter um comportamento de esbanjamento e total falta de compromisso social.
A expressão “pão e circo” parece ser uma verdade medieval que se enraizou em solo brasileiro como uma praga social, uma desconstrução da identidade nacional que nos envergonha. Trata-se de um perfil entranhado na realidade do país, difícil de desconstruir. Asco que se fala. Comportamento visceralmente típico do cidadão que se despreza e se reconhece diminuto, apto às sobras da história. Por conta disso projeta, em outros, muitas frustrações e, assim, todos são cooptados à desordem social.
Se haverá mudanças, elas já tardam a chegar. São inúmeras gerações
comprometidas pelas práticas gananciosas de alguns indivíduos que se
comportam como imperiais donos do povo. Mudar isso vai além de um mero
esboçar de reação contrária às ações mesquinhas; propõe que os indivíduos,
em sua maioria, reconheçam-se explorados e se movam para se conhecer e
perceber o quanto podem construir – quando juntos – um país com condições
de vida melhor para todos, com distribuição de riqueza e geração de renda,
pagamento de impostos que sejam usados para o benefício da coletividade e
fiscalização contínua do uso das verbas públicas, sem privilégios nababescos
para determinados grupos econômicos e políticos.
*Neomedievo: neologismo elaborado com a intenção de determinar um retorno às práticas da
Idade Média