Mulher negra ou simplesmente “mulher”? Como a Miss Universo consegue revelar um preconceito dissimulado na sociedade

Sandro Melros - é advogado, escritor e professor
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O evento internacional “Miss Universo” revela mais do que um apanhado de medidas de cintura e de perguntas sobre o livro que a moçoila acabou de ler. Tradicionalmente, baseia-se na fútil estratégia de revelar a mulher mais bela do planeta, desde que essa beleza, claro, tenha como critérios as formas anatômicas ocidentais, mais precisamente as europeias, mesmo que boa parte dessas mulheres tenha saídos de países das Américas. Sem demérito às mulheres, o concurso registra um anacrônico erro, qual seja de cultuar beleza em detrimento de atitudes, caráter e quebra de paradigmas ancestrais e de domínio de uma cultura branca dominante. Até 2019.
Nascida em Toslo, na África do Sul, Zozibini Tunzi foi coroada, aos 26 anos, como a Miss Universo 2019 na noite do último domingo, 08 de dezembro, em Atlanta, nos Estados Unidos. O momento em que a modelo recebe o adorno de cabeça feito de ouro e 1.770 diamantes foi histórico e emocionante. Tunzi também conquistou o marco de ser a quinta negra eleita nas 68 edições da competição internacional de beleza feminina.
Antes de Zozibini, todavia, há de se registrar que outras candidatas vencedoras do concurso também eram negras. A bem da verdade, entre as 68 edições do concurso, somente cinco mulheres negras detiveram o título. Mesmo que a ciência determine que as primeiras mulheres e o futuro da humanidade terá como marca a pele negra. Junto a atual Miss Universo, somem-se a companhia de Janelle Commissiong, eleita em 1977, como a primeira Miss Universo negra do mundo, após 25 anos de existência da premiação. Ela representou Trinidad e Tobago. Nascida na Califórnia, Chelsi Smith foi eleita Miss Universo em 1995 na cidade de Windhoek, na Namíbia. Três anos depois, em 1998, Wendy Fitzwilliam foi eleita Miss Universo, representando Trinidad e Tobago. Em 2011, a angolana Leila Lopes foi eleita, em seu país.
Em seu discurso, Leila Lopes declarou que “os racistas devem procurar ajuda, porque não é normal uma pessoa pensar assim no século 21. Qualquer tipo de preconceito não tem fundamento”. Apesar de ser uma declaração impactante, posto que a mídia mundial estivesse presente, não foi tão impactante quanto a defesa da causa negra, proposta pela atual detentora do título de Miss Universo.
Candidata pela África do Sul, Zozibini chamou atenção de juízes, da plateia presente ao evento e de bilhões de telespectadores e navegadores da internet no seu discurso bem posicionado em favor da igualdade de gênero e contra o racismo. Identificada como autêntica, sua fala realiza engrandecimento de seu pertencimento ao mundo como mais uma pessoa, em que sua humanidade deve ser considerada como qualquer uma outra, com direitos e expectativas devidamente atendidas.
Durante sua apresentação, a miss África do Sul relatou que cresceu “num mundo onde uma mulher como eu, com o meu tipo de pele e cabelo, nunca foi considerada bonita”. Após eleita, disse que estava ali para refletir o orgulho de outros negros se identificarem felizes com si mesmos, independentemente de tons de pele e de aspectos físicos.
Mesmo no texto em tela a questão mulher negra fora utilizada a fim de compor a distinção entre as demais 63 mulheres cuja cor da pele não tenha sido levada em questão – inclusive mulheres orientais - por uma simples razão: não há importância no tom da pele, desde que este não seja escuro, dita a hipócrita ordem dos concursos de beleza feminina. A quem importa essa distinção, revela uma nítida e cruel questão, qual seja a de que não nos livramos do racismo torpe que deforma todo e qualquer espectro de humanidade. Que evolução resulta disso? Que mundo se quer daqui a cem anos, com uma população racista e sexista? Que mistérios guardam a ausência de fraternidade entre povos, quando o destino inevitável que a todos encontra de modo igualitário: a ausência da vida? Responder esses questionamentos é um verdadeiro exercício retórico, posto que se tenham as respostas de pronto.
A grande questão nesse episódio, portanto, destaca que um concurso que iniciou com a vulgar missão de que a mulher deva estar sempre bela para seus maridos, ser prendada, ler “O pequeno príncipe”, de Antoine de Saint- Exupéry e medidas das esculturas greco-romanas, consegue público apto a absorver uma mensagem compromissada com conceitos humanitários de combate aos preconceitos. O que se precisa é de uma linguagem que não seja de atributos, como sugere o Miss Universo, mas de inter-relações entre os povos. Nesse intento, anularem-se estigmas é imperativo, a fim de anular-se a pretensa “normalidade” de uns em relação a outros.
Não se trata, especificamente, de ser contrário a títulos de beleza, mas considerar que o belo é subjetivo, por mais tolhida que se pretenda essa condição na sociedade atual, que engessa conceitos, sempre privilegiando os mais fortes, os mais poderosos, os que detenham os comandos do direito de vida e de morte de outros. Nisso, o mundo ainda não avançou. Mas o efeito Zozibini Tunzi transcende um concurso de beleza e posiciona-se no espectro de uma sociedade plural em que beleza é o que cada um escolhe para si como algo positivo em suas vidas, sem que haja prejuízo ao julgar-se a vida de outros.