Mais farmácias independentes fecham do que abrem e revelam nova dinâmica do varejo farmacêutico
O varejo farmacêutico brasileiro continua em expansão, mas os dados mais recentes indicam uma mudança estrutural relevante no perfil desse crescimento. Levantamento da IQVIA Barter, com base na movimentação de lojas até outubro de 2025, mostra que as farmácias independentes fecharam mais unidades do que abriram nos últimos anos, em um movimento oposto ao observado entre redes organizadas, associações e franquias.
No acumulado do período, o saldo das independentes permanece negativo de forma recorrente. Apenas em 2025, foram registradas 6.555 lojas fechadas contra 5.459 abertas, resultando em um saldo negativo de -1.096 unidades. Com isso, o número total de farmácias independentes caiu de 50.075 em 2021 para 48.979 em 2025. Já o total de farmácias no Brasil seguiu em alta, ultrapassando 93,5 mil lojas, impulsionado principalmente pelo crescimento das redes estruturadas.
Para Edison Tamascia, presidente da Febrafar e da Farmarcas, os números não indicam uma crise do setor, mas uma elevação clara do nível de exigência do mercado. “O varejo farmacêutico brasileiro entrou em uma nova fase. Não é mais um mercado que cresce por inércia nem um ambiente que permite improvisos. A pressão aumentou, as margens ficaram mais estreitas e a régua subiu. Operar bem deixou de ser diferencial e virou condição básica para continuar no jogo”, afirma.
O Brasil ainda mantém uma característica singular no cenário internacional: mais da metade do varejo farmacêutico é formada por operações independentes. Esse modelo sempre foi viável devido à proximidade da cadeia, com indústria acessível, distribuidores regionais fortes e um associativismo historicamente relevante. No entanto, esse equilíbrio vem sendo colocado à prova.
“O jogo ficou mais técnico”, avalia Tamascia. “Hoje não basta comprar bem ou negociar pontualmente. O varejo exige gestão, método, controle de estoque, leitura do comportamento do consumidor, estratégia de categorias e disciplina operacional. A farmácia que atua sozinha, sem estrutura e sem apoio, enfrenta um ambiente cada vez mais competitivo e menos tolerante ao erro.”
A análise dos últimos cinco anos reforça essa tendência. Enquanto grupos mais estruturados ampliaram sua presença, o pequeno varejo perdeu participação. Segundo Tamascia, isso ocorre menos por falta de esforço do empresário e mais pela complexidade crescente do negócio. “Decisões baseadas apenas em percepção ou experiência deixaram de ser suficientes.”
Nesse novo cenário, o uso de dados tornou-se decisivo. “Dados não são mais um diferencial restrito aos grandes grupos. Eles fazem parte da gestão. Quem não consegue enxergar com clareza o que acontece no ponto de venda, no comportamento do consumidor e na performance das categorias está operando em desvantagem”, destaca.
É nesse contexto que o associativismo ganha ainda mais relevância. “Associativismo não é só escala. É acesso a inteligência, processos, treinamento, acompanhamento e troca de experiências. Sozinho, o empresário fica exposto. Junto, ele ganha estrutura para competir”, afirma Tamascia.
O varejo farmacêutico segue essencial, resiliente e com potencial de crescimento no Brasil. No entanto, o cenário mudou. “Insistir em operar como antes passou a ser um risco alto demais. Neste novo ciclo, o associativismo deixou de ser apenas uma alternativa estratégica e se tornou o caminho mais seguro para o varejo independente manter competitividade, ganhar eficiência e seguir relevante”, conclui.
Fonte: Assessoria