Elopement: comportamento de fuga em crianças autistas acende alerta para segurança e prevenção
Casos recentes registrados em Maceió reacenderam um alerta importante para famílias e profissionais que convivem com crianças autistas: o risco do chamado elopement, comportamento caracterizado pela fuga ou afastamento inesperado de uma pessoa de seu cuidador ou de um ambiente supervisionado.
Nos últimos meses, dois episódios envolvendo crianças de cinco e seis anos mobilizaram a população local. Em ambos os casos, os meninos, diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA), desapareceram após se afastarem de seus responsáveis e foram encontrados mortos em áreas com água, possivelmente vítimas de afogamento.
A psicóloga especializada em TEA, Priscila Barbosa, relaciona alguns motivos que podem levar a pessoa com autismo a ter este tipo de comportamento. “Algumas crianças, principalmente, apresentam alterações sensoriais e podem buscar estímulos específicos. Nesses casos, podem explorar ambientes ou objetos com luzes, sons ou determinadas sensações, como tocar na água. Por outro lado, também podem tentar fugir de estímulos sensoriais aversivos, crianças que se incomodam com barulhos intensos, por exemplo, podem se afastar ou fugir de ambientes muito ruidosos. Dessa forma, a criança pode se afastar dos cuidadores tanto para buscar quanto para evitar determinados estímulos, o que aumenta o risco de acidentes”, informa.
De acordo com a especialista, o autismo pode, em alguns casos, dificultar a percepção de perigo. Alterações sensoriais, dificuldades de comunicação e comportamentos impulsivos podem contribuir para que a criança se afaste sem perceber riscos ao redor. “Ao se afastarem dos cuidadores, essas crianças podem ter dificuldade para se expressar, pedir ajuda, responder a perguntas simples (como dizer o nome ou endereço) ou explicar o que aconteceu. Além disso, muitas crianças com TEA podem apresentar dificuldades na compreensão de regras sociais, o que pode impactar a noção de segurança, como, entender que não devem sair sozinhas de casa ou interagir com estranhos. De modo geral, a criança com TEA pode apresentar alterações sensoriais, cognitivas, comunicativas e comportamentais que dificultam a percepção de perigo, contribuindo para a ocorrência do elopement”, adverte Priscila Barbosa.
“Crianças com autismo frequentemente apresentam dificuldades na comunicação social, ou seja, na comunicação voltada para a interação com o outro. Em muitos casos, a criança pode não conseguir expressar suas necessidades, como fome, cansaço, dor, desejo por algo ou incômodo com determinada situação. Nesses contextos, o elopement pode surgir como uma forma de comunicação, sendo utilizado para suprir essas necessidades”, observa Priscila Barbosa.
A terapeuta orienta as famílias a como agir para evitar situações de fuga e traz dicas práticas sobre como fazer isso no dia a dia. “É importante que os pais ensinem habilidades de segurança para as crianças, como responder a perguntas de identificação, dizer o nome, o endereço, o nome dos pais e o telefone. Também é importante ensinar a criança a parar quando for chamada pelo nome e a andar ao lado do cuidador. Além disso, principalmente no caso de crianças não verbais ou com dificuldade de comunicação, é importante utilizar métodos de identificação, como colocar pulseiras que contenham as informações da criança e a indicação de que ela tem autismo”, aconselha a psicóloga.
A profissional reforça ainda que nem todas as crianças com TEA vão apresentar o elopement. “O autismo é um transtorno muito heterogêneo, ou seja, os sinais podem se manifestar de maneiras bastante diferentes de uma criança para outra. Algumas crianças podem nunca apresentar elopement, outras podem ter episódios pontuais, e algumas podem apresentar esse comportamento com maior frequência”, informa.
Os pais podem observar alguns sinais que podem indicar maior risco de elopement, como por exemplo, quando a criança costuma andar ou correr sempre à frente dos pais, não responde quando é chamada pelo nome, corre em direção ao que quer em vez de pedir, é mais impulsiva ou tem dificuldade para esperar, já se afastou rapidamente do cuidador, já saiu de casa ou da escola sozinho ou demonstra poucas reações em situações perigosas.
Terapias comportamentais, como a intervenção ABA (Análise do Comportamento Aplicada), podem auxiliar significativamente, ensinando à criança comportamentos mais adaptativos, como se comunicar de forma funcional e seguir instruções de segurança.
Apesar de ser frequentemente associado ao TEA, o elopement não ocorre apenas em crianças autistas. O comportamento também pode aparecer em pessoas com deficiência intelectual, em idosos com quadros de demência e em outras condições que afetem a percepção de risco ou a orientação espacial.
Fonte: Assessoria