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Maceió/Al, 27 de outubro de 2021

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23/08/2021 às 20:21

Crônica: Abobrinha por mandioquinha salsa

Por Rodrigo Alves de Carvalho (*)

O Everaldo não é muito chegado a legumes, na verdade detesta legumes. Porém, a única exceção e o que sempre pede para a Lucimara comprar no mercadinho do bairro às quartas feiras é a mandioquinha salsa. 

- O sabor é único, o cheirinho é muito gostoso, além de derreter na boca! 

Por isso, toda semana a Lucimara prepara a mandioquinha salsa cozida com cheiro verde e temperos especiais. Uma delícia! 

Contudo, naquela quinta-feira, Everaldo teria uma surpresa que nunca mais esqueceria em sua vida. 

Aquele cheirinho de mandioquinha salsa logo que adentrou pela porta da sala após mais um dia estressante de trabalho o fez esquecer seu chefe chato e aquelas dúzias de planilhas que teria que organizar no dia seguinte, e olha que o dia seguinte era uma sexta-feira. 

Mas aquele cheirinho de mandioquinha salsa o fez flutuar sobre o chão. Tomou um banho rapidinho, porque sempre teve esse cuidado de tomar banho antes de comer para não entortar a boca. Quando era criança, Everaldo ouvia histórias de sua avozinha que prevenia seus netos a nunca tomarem banho após as refeições. 

Quando saiu do banho, Lucimara acabara de preparar a mesa e rapidamente Everaldo se serviu generosamente com o arroz e feijão a transbordar do prato, um naco gigante de acém cozido na mostarda com folhas de louro e uma porção ainda mais gigante de mandioquinha salsa cozida. 

Comeu tudo junto e misturado, só não repetiu porque comeu praticamente toda mandioquinha somente nesta primeira pratada. 

- Nossa Lucimara, a mandioquinha estava meio diferente dessa vez. Você mudou a receita? 

- Não meu amor. É que a mandioquinha salsa estava tão pouco que eu tive que misturar com abobrinha! 

Everaldo ficou calado por alguns minutos. Após recobrar os sentidos pensou ter ouvido mal. 

- Você misturou com o quê? 

- Com abobrinha picadinha. 

- Mas quanto de abobrinha você colocou? 

- Só tinha uma mandioquinha salsa media, o resto foi tudo abobrinha. 

- Mas você sabe que eu odeio abobrinha Lucimara! 

- Você comeu tudo e queria mais. Como vem dizer que odeia abobrinha? 

- Você me enganou Lucimara. Nunca achei que fosse capaz disso. 

Everaldo chorou muito naquela noite e também chorou sobre as planilhas que teve que organizar no dia seguinte. 

Depois disso nunca mais comeu mandioquinha salsa. Com medo de comer novamente abobrinha e novamente gostar. 

(*) Nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta possui diversos prêmios literários em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas. Em 2018 lançou seu primeiro livro individual intitulado “Contos Colhidos” pela editora Clube de Autores.


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