A ideia de utilizar dados para prever crimes não é recente, mas a tecnologia moderna permitiu que essa prática se tornasse mais sofisticada e acessível. Desde os trabalhos pioneiros de Adolphe Quetelet e André-Michel Guerry no século XIX, que analisaram padrões de criminalidade em dados demográficos, até o desenvolvimento de sistemas como o PredPol (Predictive Policing), em 2009, a evolução do policiamento preditivo tem sido notável.
O PredPol, desenvolvido por cientistas da Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), e da Universidade de Santa Clara. Desde então, outras empresas e instituições desenvolveram sistemas semelhantes, com diferentes abordagens e tecnologias.
Amiúde, o policiamento preditivo usa algoritmos de IA para analisar dados históricos de crimes e outros fatores para prever onde e quando os crimes provavelmente ocorrerão, permitindo que as autoridades policiais aloquem recursos e potencialmente previnam crimes antes que eles aconteçam.
Previsão e prevenção de crimes
Uma das aplicações mais notáveis do uso de IA no policiamento é o policiamento preditivo. Algoritmos de IA analisam grandes conjuntos de dados, como dados históricos de crimes, atividade em mídias sociais e fatores ambientais, para prever onde e quando os crimes provavelmente ocorrerão. Essas previsões permitem que as forças policiais aloquem recursos de forma mais eficiente, aumentando as patrulhas em áreas de alto risco e, em teoria, prevenindo crimes antes que eles aconteçam.
Pontos positivos do Policiamento Preditivo
O policiamento preditivo oferece diversos benefícios, incluindo:
Prevenção: Ao direcionar o policiamento para áreas de maior risco, é possível prevenir crimes e aumentar a sensação de segurança da população.
Otimização de recursos: Permite que as forças de segurança se concentrem em áreas onde são mais necessárias, otimizando o uso de recursos policiais e reduzindo custos.
Desafios e considerações éticas
Autores progressistas defendem que o policiamento preditivo também apresenta desafios e considerações éticas importantes:
Vício algorítmico: Existe o risco de os algoritmos perpetuarem preconceitos existentes, levando a um policiamento excessivo de comunidades minoritárias.
Privacidade: O uso de câmeras inteligentes e reconhecimento facial levanta preocupações sobre a privacidade individual.
Posicionamento dos Clássicos:
a) Thomas Jefferson
A frase de Jefferson, "o preço da liberdade é a eterna vigilância", ecoa
através dos tempos, ressaltando a importância da vigilância constante para
a preservação dos direitos e garantias individuais.
b) Jean-Jacques Rousseau (Do Contrato Social, 1762) Argumento: O "contrato social" exige que os indivíduos submetam sua "vontade particular" à "vontade geral", que busca o bem comum. Aplicação: A exposição de criminosos pode ser vista como um mecanismo para preservar a vontade geral da sociedade.
c) Platão (A República, 380 a.C.)
Argumento: Na cidade ideal, os interesses individuais devem ser subordinados à harmonia coletiva. O mito dos metais (ouro, prata, bronze) ilustra que cada um deve cumprir seu papel para o bem da polis.
Aplicação: A segurança pública justifica medidas que afetem indivíduos específicos para manter a ordem social.
d) Aristóteles (Política, século IV a.C.)
Argumento: "O homem é um animal político" (zoon politikon), e a comunidade (polis) é anterior ao indivíduo. O bem comum é superior ao bem particular.
Aplicação: A coletividade tem primazia, desde que as leis sejam justas e visem à Eudaimonia (felicidade coletiva).
e) Cícero (De Res Publica, 54 a.C.)
Argumento: A res publica ("coisa pública") deve ser protegida mesmo que exija sacrifícios individuais. A justiça social está acima dos desejos pessoais.
Fundamentação criminológica: a Escola de Chicago
A Escola de Chicago, com suas teorias sobre ecologia social e desorganização social, oferece uma fundamentação criminológica para o policiamento preditivo. Desenvolvida por grandes nomes da sociologia criminal como Shaw, McKay, Park e Burgess a Teoria da Desorganização Social (TDS) um dos pilares da Escola de Chicago, busca explicar como a estrutura social de um ambiente urbano influencia os índices de criminalidade. Em vez de focar em características individuais dos criminosos, a teoria direciona o olhar para o contexto em que o crime ocorre. A TDS argumenta que a criminalidade é mais alta em áreas urbanas caracterizadas por pobreza, deterioração física e alta mobilidade social.
Nessas áreas, a falta de coesão social e controle informal dificulta a prevenção do crime. O policiamento preditivo ajuda a identificar essas áreas de alta criminalidade e direcionar recursos policiais para fortalecer o controle social e prevenir crimes.
Além disso, a Teoria dos lugares perigosos ( Hot Spots Policing) também derivada da Escola de Chicago, desenvolvida pelos pesquisadores Sherman, Patrick e Weisburd, argumenta que certos locais, como bares, becos e estações de ônibus, são mais propensos a crimes devido à sua natureza e uso. O policiamento preditivo ajuda a identificar esses lugares perigosos e implementar estratégias de policiamento direcionadas para prevenir crimes.
A Teoria dos lugares perigosos se baseia na ideia de que o crime não é distribuído aleatoriamente no espaço, mas sim concentrado em determinados locais.
O policiamento preditivo, impulsionado por câmeras inteligentes e algoritmos, tem se tornado uma ferramenta cada vez mais presente em cidades ao redor do mundo. Sendo certo que, sua implementação e os resultados obtidos variam significativamente entre as regiões.
Cidades que utilizam policiamento preditivo:
Estados Unidos: Cidades como Los Angeles, Chicago e Nova York já implementaram sistemas de policiamento preditivo, incluindo o uso do PredPol. No entanto, o uso dessa tecnologia tem gerado debates sobre viés racial e privacidade.
Europa: Em países como o Reino Unido e a Holanda, há iniciativas de policiamento preditivo em andamento, com foco na análise de dados para identificar áreas de maior risco criminal.
IA em ação no policiamento
De algoritmos preditivos que ajudam a impedir crimes antes que aconteçam a softwares de reconhecimento facial que podem escolher um suspeito em uma multidão mais rápido do que um policial experiente, a IA estar rapidamente se tornando um novo elemento valioso para as forças policiais do Reino Unido. Mas, como acontece com qualquer nova tendência tecnológica, ela está gerando debates sobre privacidade, preconceito e o papel da tecnologia na sociedade.
Ainda na Inglaterra, existe o CRUSH (Criminal Reduction Utilizing Statistical History) é um sistema que utiliza dados históricos de criminalidade, incluindo informações sobre o clima e outros fatores, para identificar áreas e horários com maior probabilidade de ocorrência de crimes.
Várias cidades europeias (Oslo, Estocolmo, Bonn, Paris, Viena etc.) utilizam sistemas de videovigilância inteligente para monitorar espaços públicos e detectar comportamentos suspeitos.
Ásia:
Cidades como Singapura e Pequim têm investido em sistemas de vigilância em larga escala, com reconhecimento facial e análise de dados para monitorar a população e prever crimes.
A China é um dos países que mais utiliza tecnologias de policiamento preditivo, com sistemas de reconhecimento facial e análise de dados em larga escala.
Policiamento preditivo no Brasil
1. Aracaju, Brasil
Desde 2018, Aracaju implementou um moderno sistema de videomonitoramento operado pelo Centro de Controle Operacional (CCO) da Guarda Municipal. Com mais de 2.700 câmeras instaladas em órgãos municipais e pontos de grande movimento, a cidade registrou uma redução superior a 93% nas incidências criminosas contra o patrimônio público municipal. Além disso, 187 tentativas de arrombamento foram frustradas, evidenciando a eficácia do sistema na prevenção de crimes. (Prefeitura Municipal de Curitiba+2Prefeitura de Aracaju+2Prefeitura Municipal de Curitiba+2)
2. Curitiba, Brasil
Curitiba implementou a "Muralha Digital", um cerco de segurança eletrônica que, em quase cinco anos de operação, contribuiu para a redução de até 40% nas ocorrências criminais em pontos monitorados. Por exemplo, na Praça do Redentor, as ocorrências caíram de 259 no primeiro semestre de 2020 para 147 no mesmo período de 2022. Além disso, imagens captadas pelo sistema foram utilizadas em investigações criminais, reforçando a capacidade de resposta das autoridades.
3. São Paulo, Brasil
Por sua vez, o Muralha Paulista é um programa do governo de São Paulo que utiliza câmeras de vigilância e outras tecnologias para combater a criminalidade. O programa foi instituído pelo Decreto nº 68.828/2024, integrando dados de diversas instituições para melhorar a segurança pública do estado.
Como funciona
Utiliza câmeras de reconhecimento facial e de vigilância;
Une dados de polícias, prefeituras, Detran, Judiciário e fiscais;
Identifica 18 tipos de comportamentos ilícitos;
Integra sistemas de radares e câmeras dos municípios;
Monitora o tráfego e possa identificar veículos suspeitos;
Integra dados para alertar sobre crimes iminentes;
Agrega dados para melhorar a visibilidade das estatísticas criminais;
Atua em perfeita harmonia com o programa de videomonitoramento Smart Sampa da Prefeitura de São Paulo.
A guisa de conclusão:
Ora, não há nada mais eficiente do que dizer ao crime onde não cometer delitos, certo? A arte do policiamento preditivo se baseia em modelos estatísticos e algoritmos que, ao cruzarem dados históricos, prometem antecipar onde e quando atos ilícitos têm maior chance de ocorrer. Assim, o criminoso mais perspicaz poderia muito bem considerar essa ferramenta como um serviço gratuito de "consultoria estratégica" — afinal, se sabe onde haverá reforço policial, basta migrar suas atividades para um lugar não mapeado.
Ironias à parte, o policiamento preditivo fundamenta-se em teorias criminológicas sólidas, como a abordagem de Hot Spots, que demonstra que o crime tende a se concentrar em determinadas áreas. Além disso, conceitos como a Teoria das Atividades Rotineiras (Cohen & Felson) reforçam a lógica de que o delito ocorre quando há um infrator motivado, uma vítima disponível e a ausência de um guardião eficiente. O modelo preditivo, portanto, busca tornar esses "guardas" mais eficazes, ampliando sua presença justamente onde a vulnerabilidade é maior.
No fim das contas, prever o crime é um avanço, mas prevenir sua necessidade de existir ainda seria a maior das revoluções.
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